A minha mente é um sótão vazio num terminal de metro que já ninguém usa. As memórias de quando éramos novos passam pelos corredores numa circulação viciada como se fossem figurinos de um elenco anónimo que ninguém quer conhecer por não terem qualquer importância na história.
Nada como um café amargo pela manhã. Vemos a esquina das pessoas, que é como quem diz vemos as pessoas de esquina, uma outra forma de dizer superficial, e percebemos as semelhanças e diferenças àquela hora da manhã, mas no fundo é tudo o mesmo, uns mais bonitos do que os outros, mais ou menos dinheiro gasto em adereços, roupas, cremes, cheiros para borrifar no pescoço e consultas de estomatologia. No fundo tudo o mesmo, quando temos que morrer o medo é igual, mas não, credo, não se fale na morte. Pois fiquem sabendo que é coisa mais certa. E por isso digo que não há nada como um café amargo pela manhã aquecendo-nos por dentro e fazendo retornar à vida o corpo cansado que a noite sempre curta não regenerou. Nada como um café amargo para percebermos que andamos presos por arames, não que estejamos todos doentes, mas porque a nossa condição é naturalmente frágil. E não pensem que isto são coisas ditas para ficarem bonitas no papel. Ora reparem, sexta-feira, hoje é domingo, uma prima minha, por afinidade diga-se mas o resultado é o mesmo, sexta-feira dizia eu, essa prima apanhou um vírus que a fez sentir mal, visita do médico a casa no sábado, hoje domingo, está em coma. Por tanto...
Nada como uma café amargo pela manhã para nos lembrarmos que estamos vivos.
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