Cai no Metro a Trindade

Oito e dez, hora de ponta. Metro de Lisboa apinhado como é apanágio, principalmente agora que retiraram uma carruagem à composição, restrições impostas pela crise. Quem compra o passe que se lixe. O valor aumenta, o metro encolhe. Onde cabiam cem, e digo cem como exemplo, continuam a caber, só que mais apertados. O cliente come e cala, contra mim falo, que acho que reclamar por palavras nestes casos é uma perda de tempo, porque é óbvio que quem tomou esta decisão tem dois olhos na cara para ver que a qualidade do serviço diminuiu em muito. O que interessam reclamações e queixumes quando eles já sabem o que se passa. Só se caísse o Carmo e a Trindade, juntavam-se os utilizadores todos e bloqueavam  uma estação ou duas, tirando isso, com queixinhas isto não vai lá. Ás vezes penso que em certas situações, a ignorância de quem tem o poder, uma ignorância fingida claro está, porque dá jeito, deveria ser tratada como se trata um bruto ignorante que teima numa direcção sem conseguir perceber o que lhe dizemos, à porrada, e não me levem a mal, mas a palavra adapta-se aqui perfeitamente. Eu sei que é voltar atrás na evolução que tanto aclamamos. A violência não deveria ser usada quando existe o diálogo, mas se o diálogo apenas consegue atingir as pedras da parede, a paciência-se esgota-se e a linguagem a usar passa a ser a universal porrada, claro está, como quem dá uma palmada numa criança
teimosa cuja única forma de corrigir algo que está a fazer de mal é através do receio da dor física que essa mesma palmada bem assente no cu das calças provoca.

Paragem seguinte, esperança que saiam mais do que os que entram. De repente, um apito vindo do compartimento onde o privilegiado do maquinista viaja à larga com vista desafogada. Ninguém se apercebe que algo não está bem a não ser quando as portas em vez de fecharem para seguirmos viagem, permanecem abertas enquanto um indivíduo de walkie-talkie na mão anda apressado do lado  de fora. Levantam-se cabeças procurando a causa,
saem pessoas desistindo da viagem enquanto os minutos passam. Devem fazer só mais uma paragem e preferem ir a pé. Quem tem mais para andar é que não tem outro remédio se não esperar ali parado olhando de relance para o relógio. Afinal o que é que se passa, perguntam todos em surdina. Caiu alguém à linha, está avariado? 


Uma senhora à minha frente relata o sucedido falando com outro senhor que não passando de um estranho, passa de repente, face às circunstâncias, a receber todas as explicações que a senhora quer dar. Ao que parece foi uma outra senhora que se sentiu mal e perdeu os sentidos caindo a meia carruagem daqui, explica ela. Compreendo perfeitamente que se tenha sentido mal, com tanta gente. O que não compreendo é como é que ela encontrou espaço para cair. 
Passados uns momentos lá arrebitou ouvindo-se alguém a perguntar-lhe o nome de forma a conseguir perceber a lucidez e o estado da senhora num diagnóstico improvisado de puro senso comum. Trindade. A senhora chama-se Trindade e parece melhor, graças a deus, alguém diz. Breves momentos passados e já o apita anuncia o fecho de portas. Graças a deus, pensa toda a gente. 
E enquanto arrancamos feito toupeiras por baixo da cidade, não consigo deixar de pensar que ainda não caiu o Carmo e a Trindade, mas já caiu no Metro a Trindade, a senhora Trindade leia-se, e continuamos aqui todos enlatados mesmo depois de já alguém se ter sentido mal com estas condições.

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