Dioptrias qb


Há um tempo atrás, não muito, resolvi ver o que se passava com o cansaço dos olhos. Consulta marcada numa daquelas ópticas que fazem exames livres, leia-se de graça, na esperança de que precisemos mesmo de comprar ou de trocar de óculos para os comprar-mos a eles. Marketing puro que até nos dá jeito a nós , comuns mortais. Dia do exame, final da tarde de um dia comum. Fiz-me anunciar à menina do balcão que me pediu para aguardar porque ainda estava a decorrer uma consulta. Eu sei que cheguei mais cedo, mas entre a minha chegada prematura até ao momento em que fui atendido, deu-me tempo para ver ao pormenor todas as colecções de óculos para homem, senhora e criança para este ano. Três vezes. 


Finalmente a minha vez. Médica simpática, Pode colocar aí as suas coisas, Obrigado doutora. Sente-se naquela cadeira por favor, disse ela novamente. Cadeira não, simulador de vôo, pensei eu, com tanta parafernália à volta, só pode. Eu sei que este tipo de reparos são comentários a roçar a ignorância, mas afinal de contas não sou o médico presente na sala, e quanto mais eu baixar o meu nível intelectual, mesmo que aparentemente, maior será relativamente o nível da médica, que terá desta forma muitas mais chances de acertar no diagnóstico. 



Teste para aqui, teste para alí, feche um olho, abra o outro. Ao fundo um quadro com letras, o clássico, em que as letras vão ficando cada mais pequenas e damos por nós a tentar adivinhar uma ou outra para não fazermos má figura, enquanto os nossos olhos andam à bulha por dentro para ver quem consegue focar primeiro. Mais nítido agora, perguntou, Nem sei, E agora Pedro, Agora sim, está melhor. Repetidos os testes vez após vez com lentes diferentes numa armação monstruosa que abraça o rosto, onde o realizador do Saw se inspirou. De certeza. Entretanto um outro teste ainda mais fantástico. A armação inicial é removida e eu continuando sentado no mesmo cadeirao hi-tech vejo um monstro a aproximar-se do meu rosto pelas mãos da doutora na ponta de um braço extensível . Não se assuste, Não, respondi. Maquineta colocada , rodelas encaixadas à frente dos olhos. Fez-me lembrar aqueles brinquedos de criança que parecendo uns binóculos passam fotografias num cartão rotativo. Qual é o meu espanto, quando olhando para dentro dos orificios vejo uma imagem de um pequeno barco num fundo azul mar que em tudo parecia as imagens do tal brinquedo. Foca desfoca, ruído para a esquerda, foca desfoca, ruído para a direita e finalmente do lado de fora pergunta a doutora, Está focado não está, Sim, sim, perfeito. Maquineta fora, liberto da geringonca pergunto numa voz espassada para acentuar a pergunta, Era um barquinho, não era doutora? Sorriso enorme confirmando a minha soberba dedução. Sim, era um barquinho, disse ela enquanto eu lhe retribuia o sorriso. 


E então doutora? Ela, material arrumado, sentada à minha frente puxa do diagnóstico que tinha na cabeça e diz-me que as dioptrias se mantinham as mesmas. As dioptrias mantêm-se, Óptimo, disse eu, Já não vos compro óculos novos, pensei. Oh, doutora, então mas e o cansaço? Bom, começou ela, Pelo que me disse no início, é natural para alguém que trabalha tanto ao computador isso acontecer. Tem que fazer pausas por muito curtas que sejam quando estiver a trabalhar e aconselho-o a começar a usar os óculos logo de manhã e não apenas quando começar a sentir os olhos cansados. Bolas, porque que é que não pensei nisso antes, pensei. Por isso é que não sou médico.

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