a Paixão emagrece, o Amor enGorda

Os sentimentos são tão ou mais antigos quanto o homem, porque antes de ser homem, já o homem era animal, e até os animais sentem. Claro que com a evolução tudo evoluiu e os sentimentos não ficaram atrás. Dos mais básicos como sejam o ódio a um inimigo ou o medo a um predador, até aos mais complexos estudados em obras de psicologia, não existe nenhum mais falado, mais usado e mais mal interpretado que o amor. 

Toda a gente fala do amor. As igrejas falam do amor. Do amor ao próximo, de amor a deus, de amor a tudo numa extrema humildade, não que a humildade seja má, muito pelo contrário, mas no amor que a igreja fala esquece muitas vezes que o amor fundamental para que possamos amar os outros verdadeiramente passa pelo nosso amor próprio. 
Os homens, por seu lado, falam sobre o amor quando muitas vezes apenas querem falar
sobre sexo. As mulheres falam sobre amor quando muitas vezes querem é falar sobre segurança, carência afectiva ou um conto de fadas perfeito, quando o amor é muito mais simples do que isso. 
As crianças falam de amor porque os adultos as incentivam nesse sentido, porque é uma boa prática, porque é bonito, mas na realidade não sabem bem do que falam,  chega até a ser um contra-senso porque não existe faixa etária mais cruel do que aquela em que as crianças se inserem. 

Para além de todos estas más interpretações gerais e esteriotipadas, existem depois todas as outras milhentas interpretações com as quais já nos identificámos ou ainda nos identificamos estando elas erradas ou não. Claro que quais estão erradas ou certas nunca ninguém poderá assumir com certeza. No entanto, muitos de nós, à força de tanta cabeçada na parede em nome do amor, começamos ao final de alguns anos a ter um ligeiro entendimento desse sentimento. E baseados nessa experiência surgem conceitos e teorias que não sendo erradas, poderão fazer sentido apenas para uma pessoa. E apercebi-me disto no outro dia numa troca de pareceres no meio de uma conversa já não sei com quem, em que referi que o amor engorda. Depressa negaram dizendo, O amor emagrece. Mau, em que é que ficamos, pergunto eu agora. Lá está, não existe uma teoria ou resposta correcta, no entanto demonstrei o meu ponto de vista e disse, Não, não, o amor engorda. O que emagrece é a paixão. E parece-me óbvio. Só quem nunca esteve apaixonado é que não sabe. 

A paixão é aquele sentimento que tira a fome, que nos faz esquecer tudo o resto e que nos deixa cegos. Apaixonados só pensamos na outra pessoa, a ânsia de estarmos com ela inibe a vontade de comer, faz-nos ignorar os seus defeitos como se fossem coisas mínimas ou até coisas boas. O melhor da paixão é que a libido atinge o seu auge, o pior é que quando a paixão se desvanece os pequenos defeitos da outra pessoa quando mastiga ou diz qualquer coisa de determinada maneira,  se tornam gigantescos e intoleráveis fazendo-nos ver a realidade como se tivessem acendido uma luz fluorescente fria e crua.

O amor, por seu lado, aquele que vem mesmo cá de dentro e não aquele usado apenas como expressão carinhosa, é um sentimento normalmente mais tardio do que a paixão, e que por isso nos deixa ver melhor. E sendo amor faz-nos aceitar a outra pessoa como ela realmente é. O amor é menos cego do que normalmente apregoam. É também mais calmo e tranquilo. Enquanto que a paixão só nos deixa olhar para nós, para o nosso umbigo de apaixonados como se o mundo fosse uma coisa à parte, o amor torna-nos parte do mundo deixando-nos olhar à nossa volta para apreciar-mos com toda a calma o que nos rodeia para que possamos usufruir o que de melhor a vida tem.

Uma dessas coisas, entre muitas outras, é comer ao lado da pessoa amada. Jantar num local romântico numa data especial, fazer um jantar íntimo em casa a dois para quebrar a rotina, tomar um bom e demorado pequeno almoço depois de uma noite longa ou pura e simplesmente uma almoçarada em família. Entre muitas coisas, o amor também é isto. E sendo isto, engorda ou não engorda? 



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