VidA em PauSa

Estou cansado de viver, disse Miguel sentado no chão, braços abraçando os joelhos. 


O que se passa Miguel? Miriam, sentada na ponta da chaise-longue do sofá olhava Miguel com medo pelas suas palavras. Nunca o tinha visto desta forma. Olhos vazios com uma esperança sem cor e translúcida. O que se passa, perguntou ela. O silêncio da sala acompanhou os lábios de Miguel, imóveis, o mesmo olhar no rosto. Notava-se um cansaço terrível na sua postura, cansaço que nem todos conseguiriam ver, um cansaço vindo de dentro da alma como se da alma de um escravo sem forças se tratasse. Estou cansado, disse ele finalmente, Cansado de quê, questionou ela, Cansado, continuou ele, Cansado desta luta diária. Mas cansado de quê, voltou ela a perguntar. Estou cansado disto tudo, sabes? Parece que temos sempre a vida em pausa... Poupamos dinheiro para fazer coisas que nunca fazemos, esperamos por férias que nunca temos, aguardamos que os miúdos cresçam para voltarmos a ser o que já fomos, mas que nunca mais seremos. Estou cansado de dar tudo o que tenho e parece-me que afinal não tenho nada. Mas os nossos meninos não têm culpa, interrompeu ela,  Nem eu disse que tinham, nem tu tens,compreende, sou eu que mesmo sentindo-me feliz por te ter ao meu lado, sinto que temos a vida em pausa sempre para qualquer coisa que nunca há-de chegar. Parece que temos a vida em pausa temporariamente para criar-mos algo maior que nunca iremos construir, porque a vida passa todos os dias e a pausa que parece que fazemos é na realidade a nossa própria vida a qual deixamos fugir no saco roto das nossas mãos... E só nos iremos aperceber disso quando
já formos velhos demais ou um dia que enfrentemos a morte numa curva do caminho e vir-mos que a vida em pausa, aquela parte da vida que abdicámos para podermos viver uma outra parte melhor, foi na realidade tudo o que tivemos... 


Miriam levantou-se. O choro de uma das crianças ecoava pela casa. Já de costas ouviu as últimas palavras de Miguel. Desculpa, já continuas, dá-me um minuto, disse Miriam em voz alta afastando-se pelo corredor. É disto que estou a falar, disse Miguel entre dentes.

Um minuto transformou-se em dois, dois em quatro e quatro em oito numa progressão natural quando se tem crianças em casa. Miriam voltou à sala já escura. O sol já se tinha posto num ocaso precoce de inverno. Miguel? Apalpou ela com a voz enquanto os olhos se tentavam ambientar. Nisto um estouro. O que foi isto, perguntou ela baixinho para si própria como se quisesse obter uma resposta imediata com a sua pergunta. Miguel, o que foi isto? Ouviste? Terá sido um acidente? Assaltou-lhe a cabeça que o som teria vindo de dentro da casa de tão alto que foi. O barulho das crianças vindo do quarto das brincadeiras continuava igual, mas mesmo assim correu a ver se estavam bem. Voltou em direcção à sala mas virou para os quartos. 

O coração batia mais forte sem saber porquê, entrou na suite acendendo a luz, porta da casa de banho fechada quando normalmente está sempre aberta a não ser que um deles estivesse no duche. Dirigiu-se à porta que estava mesmo fechada. Miguel? Chamou ela com o coração já na boca. Olhou em volta. Num relance passou-lhe pelo olhar uma caixa em cima da mesa de cabeceira. Voltou atrás com os olhos e reconheceu a caixa. Uma caixa que já não via há imenso tempo por estar guardada num lugar inacessível. Tinha sido ela, aliás, a pedir-lhe que a escondesse. Com crianças em casa não quero por aqui armas, lembrou-se ela das suas palavras. Agora a caixa vazia, a porta da casa de banho fechada, o coração na boca. Miriam colou-se à madeira da porta, uma mão aberta como quem sente a textura, excepto que neste caso a dormência dos nervos não deixavam sentir nada, outra mão no puxador tentanto em vão abrir a porta. Miguel? Amor? Continuava ela sem parar. Um cheiro a queimado chegava-lhe ao nariz sem perceber que afinal era a pólvora queimada que cheirava. A mão aberta batia ao de leve vez após vez como se não quisesse acordar alguém. O desepero subia, uma lâmina de angústia espetava-se no estômago, uma lâmina fria que a dilacerava por dentro. 


Uma tontura subiu-lhe à cabeça e o chão abriu-se debaixo de si, um espasmo involuntário no peito quebrou o selo que a esperança tinha colocado nos seus olhos soltando as lágrimas numa dor que nenhuma palavra pode descrever. A boca abre-se sem proferir qualquer som, a descarga de adrenalina espalha-se pelo corpo numa sensação de medo e impotência. Sente-se a rasgar por dentro deixando-se escorregar porta abaixo colada a ela numa lentidão cinematográfica tentando agarrar algo que sabe já não existir. Um nó crava-se no pescoço como se uma corda invisível a enforcasse esmagando-lhe a garganta. Sente parte de si morrer naquele momento como se parte do seu ser se consumisse numa chama enorme, como se tudo até aquele momento fosse um sonho longínquo que desapareceu numa fracção mínima de tempo. O seu corpo é um amontoado retorcido de sofrimento, joelhos no chão, pescoço pendente, um braço torcido debaixo de si que ali ficou ao escorregar. As lágrimas caiem-lhe numa corrente interminável, um gemido baixo arrancado a ferros da garganta apertada é tudo o que se ouve naquele momento. Um minuto transformou-se em dois e dois transformaram-se em quatro parecendo horas intermináveis até que Miriam consegue balbuciar a custo, Oh mor... A vida não está em pausa... A vida não está em pausa... Amo-te em cada minuto. A vida não está em pausa, a vida não tem férias... Nunca mais seremos o que um dia fomos, porque somos agora muito mais do que algum dia sonhámos ser. Oh, mor... Continuou ela em soluços, A vida não está em pausa... Construir algo maior... É o que já estamos a fazer amor, os nossos meninos são a nossa obra maior, e se um dia tiver que descobrir que tivemos a vida em pausa quando já for velha demais, que seja ao teu lado, porque se assim for, sei que valeu a pena...

Do outro lado da porta, o silêncio. Sem pausa.



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