Recordo a infância como se fosse ontem. Não com todo o pormenor claro, mas recordo ainda hoje muitos momentos apesar de tantos anos passados. Alguns deles de uma nostalgia tal, nostalgia infantil, claro, que difere da outra por ser ainda mais doce, capazes de alimentar agora alguns momentos de adulto com uma doçura maternal impossível de encontrar em qualquer outro lugar.
No entanto, a memória tem tanto de bom como de mau, porque não distingue o bom do mau, apenas recorda de uma forma geral. Porém, a memória tem uma outra capacidade, que é envelhecer as recordações com açúcar. Sim açúcar. As recordações de coisas boas ou de pessoas que nos marcaram, com o passar dos anos tornam-se mais doces, mais especiais. A recordação de alguém que era especial, um avô por exemplo, ou de algo bom que aconteceu, por muito banal que seja, ganha um doce nostálgico que nos projecta no rosto aquele sorriso de saudade que tão bem conhecemos quando conversamos com amigos sobre coisas passadas. Sabem que sorriso é, não sabem?
Por outro lado, as coisas más que nos aconteceram, têm tendência com o passar do tempo a ficarem mais suaves. A memória mais uma vez adiciona-lhes o açúcar do tempo para que não fiquem tão amargas, já que recordações más nunca poderão ficar doces.
Mas o mais fantástico ainda, é a memória das crianças. Por muito má que seja a infância de uma criança, ela encontra sempre alegria em pequenas coisas, em coisas simples que a façam feliz em cada momento. A criança tem tendência a viver muito mais o momento sem se preocupar com o que se passou ontem ou com o que se irá passar amanhã. Se neste momento joga à bola e está feliz, tudo o resto desparece. A felicidade daquele momento suplanta tudo. O que nos leva para outro caminho, que é o facto da capacidade de uma criança ser feliz.
As crianças, talvez por ainda conhecerem pouco da vida, ou pela sua inocência, muitas vezes retirada cedo demais das suas vidas, conseguem ser felizes com muito pouco. E vemos como exemplo extremo na televisão ou em jornais e revistas a imagem de crianças mutiladas pela guerra a sorrir enquanto lhes tiram uma fotografia dando-lhes uma importância naquele momento, que provavelmente nunca tiveram em toda a sua vida. Como é que uma criança mutilada para o resto da sua vida consegue sorrir quando muitos de nós, por muito menos, nos deixamos abater pela pena que temos de nós próprios?
As crianças são fantásticas. E a memória das crianças é uma arma brutal que as torna muito mais fortes que a maioria dos adultos. E como adulto que já sou, apesar de continuar a ter sempre aquele rapaz cá dentro que já fui e que sempre há-de cá viver, não consigo deixar de me comover o quanto pagam as crianças pelas faltas e erros dos adultos, seja num divórcio, seja numa guerra, seja por abusos psicológicos ou físicos. Não consigo deixar de pensar que no meio de todas estas coisas más que o mundo tem para oferecer, o pior de tudo são as crianças cuja inocência é corrompida. O pior do mundo são as crianças privadas da sua infância e arrastadas para o mundo dos adultos cedo demais. O pior do mundo são as crianças... Porque o melhor do mundo são as crianças. E o seu sorriso.
Comentários