Há muitos anos, morreu-me uma bisavó. Até aqui, nada de especial. Eu era mais novo, ela com a idade que uma bisavó deveria ter para um bisneto da idade que eu tinha na altura. Se fosse hoje já era especial, pois já teria passado dos cem. Ela. Não eu. Vocês percebem.
Há uns anos, muitos por sinal, morreu-me uma bisavó. E não sendo isto nada de extraordinário, implica que a música que oiço neste momento, precisamente neste momento, me acompanha há tantos anos que de repente me senti velho. Mas não é de agora, confesso.
Acho que isto de nos sentirmos velhos são fases que vão e vêm como as marés do mar que vão a pouco e pouco deixando os detritos do tempo na praia da nossa pele. Rugas no nosso amor próprio que teima em ser forte. Forte o suficiente para nos deixar envelhecer com glamour e sem botox. Mas a verdade é que existem momentos assim, músicas assim, que de repente nos transportam para um tempo distante, não perdido, porque nos lembramos dele, mas distante porque nunca mais volta.
E não se julguem vocês, mais novos, isentos deste sentimento, porque ele há-de chegar. Virá devagar, dia após dia, sem se fazer anunciar. E de repente olham à vossa volta e estão
cá. Tudo passou a correr, porque tudo passa a correr não se iludam, mesmo quando aproveitamos a vida.
cá. Tudo passou a correr, porque tudo passa a correr não se iludam, mesmo quando aproveitamos a vida.
Lembro-me de, sentado à espera de um qualquer transporte, olhar pessoas normais, com empregos normais, quotidianos normais, calçando sapatos normais a fazer conjunto com as suas roupas normais e via ali o estereótipo de quem eu não me queria tornar. Sabia lá eu quem eram aquelas pessoas. E agora, passados estes anos, a roupa tornou-se secundária e as Doc Martens estão arrumadas no sótão. Passados estes anos, sabem lá quem eu sou.
A verdade é que continuamos a ser quem fomos. Continuo a ser quem fui, pelo menos parte de mim, a melhor parte, quero eu acreditar, porque a pior tentei torná-la melhor. Mas continuo a ser quem fui, disso tenho a certeza. A diferença, é que cada vez existem menos pessoas que vêem quem fui, enquanto que quando era mais novo, mais gente via quem eu era. Para onde foi toda essa gente? Acredito que estão a ouvir a mesma música que agora oiço. Se não agora, amanhã ou depois, mas acredito que estão por aí, com as Doc Martens arrumadas no sótão, mas exactamente os mesmos que eram, os mesmos sonhadores, os mesmos apaixonados pela arte de sentir.
A nostalgia do tempo faz-nos sentir velhos e solitários. E eu só vos queria dizer que estou aqui. E que se por acaso estiverem aí, digam qualquer coisa, só hoje, como se ouvíssemos juntos esta música. Precisamente esta música.
Se apenas esta noite nós pudéssemos dormir...
*Desfraldando ao Conjunto Fictício dos Céus estreladosDesfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados
O esplendor do sentido nenhum da vida...
Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
O esplendor do sentido nenhum da vida...
Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.
Álvaro de Campos, in "Poemas"

Comentários
Olá amigo! Sê feliz.
Só isso já me fez feliz!