Consegues ouvir-me? Consegues ver-me? Claro que sim, acredito eu enquanto a noite dura horas intermináveis e os dias são desprovidos de qualquer interesse. Claro que não consegues, repenso eu... Quem é que conseguiria ler a banalidade que sou na mescla desta multidão. Sou apenas mais um entre ninguém em especial. Sou a ínfima parte do todo, quase nada. Não nos iludamos com o nosso umbigo, não sejamos vaidosos, primos de Narciso.
Gira o mundo à minha volta lento demais como se nada de novo existisse. Gira lento demais como quando nos habituamos a uma rotina a tal ponto, que conseguimos sair de casa e antever o momento da chegada metendo a chave à porta segundos depois.
Diz-me que sim. Apenas hoje.
Os martelos agudos do piano arrepiam-me numa nostalgia que me expulsa as lágrimas para a fronteira dos olhos. A melodia lenta torna-se veloz ao percorrer-me as artérias da saudade, ao percorrer-me as veias dos sentimentos que sempre me alimentaram a carne da existência.
Brinco com as palavras num exagero de comparações e metáforas porque é assim que me sinto, porque é assim que viajo, como se o ontem fosse hoje e o amanhã um ontem que já conhecesse de sonhos.
Gira o mundo à minha volta numa lentidão a que já me habituei, porque para ser sincero convosco, sinto que o mundo se torna lento em certos dias. O que me rodeia roda devagar
como se eu estivesse sob o efeito de uma qualquer droga para emagrecer que não tomei; como se o sangue que me percorre o corpo, intoxicado de cafeína, fosse capaz de me parar o coração.
como se eu estivesse sob o efeito de uma qualquer droga para emagrecer que não tomei; como se o sangue que me percorre o corpo, intoxicado de cafeína, fosse capaz de me parar o coração.
Gira o mundo à minha volta lento demais como se nada de novo existisse. Gira lento demais como quando nos habituamos a uma rotina a tal ponto, que conseguimos sair de casa e antever o momento da chegada metendo a chave à porta segundos depois.
Nunca vos aconteceu saírem de casa e conseguir antever cada momento do dia? Sair de casa, entrar no carro, no autocarro, no metro, saber a que horas chegamos a cada local, sentir o sabor do café que só vamos tomar daqui a vinte minutos, saber as palavras que diremos a cada pessoa, antever o almoço como se nos lembrássemos do almoço de ontem, saber mais ou menos as pessoas que se irão cruzar connosco, a que horas e em que paragens entram e saem dos transportes. Nunca vos aconteceu meter a chave à porta de casa e sentir que acabaram de sair? Não que o dia tenha passado a correr, mas como se tivessem percorrido o dia depressa demais.
Consegues ouvir-me? Consegues perceber o que te digo quando apenas olho para ti? Consegues perceber que trago este mundo cá dentro e que tantas vezes teima em sair? Consegues sentir quem realmente sou para além desta fachada decadente que nem o ginásio nem a estética conseguem reverter?
Diz-me que sim anjo que caminhas entre os mortais, diz-me que tudo não acaba aqui, que a morte não é o fim deste sentimento e que podemos continuar a amar todos os que amamos mesmo depois de morrermos.
Consegues ver-me? Consegues ver para além da transparência dos dias quem sou? Consegues ver para além do efémero que a morte apaga e depositar em mim a esperança do teu abraço, a esperança do teu sorriso tranquilo?
Diz-me que sim anjo que caminhas entre os mortais, e torna o meu dia especial.
Diz-me que sim. Apenas hoje.


Comentários