SaCo coR de Rosa

inSpirado na reProdução de um quadro de Luis Royo por Ana Costa



Caminhava como se o mundo não importasse, sendo na realidade a coisa mais importante na sua vida. Se não pudesse mostrar ao mundo e aos outros a elegância que lhe tinha saído nos genes, a sua vida seria na realidade, vazia. A beleza natural que tinha, aprimorada e trabalhada desde a adolescência até à idade actual, trinta e poucos, coisa menos coisa, fazia com que por onde passasse deixasse o desejo nos homens e a inveja nas mulheres numa aura difícil de descrever como um perfume irresistível do qual não sabemos identificar os componentes. Não era só o seu rosto, o cabelo bem tratado, a roupa ou os sapatos altos, não era só o seu pisar que lhe dava aquele caminhar elegante e seguro de uma obscenidade escondida que apenas sentimos debaixo da pele. Era tudo. Sentia-se a sua presença como quando alguém deixa uma janela aberta e se sente a brisa quente e silenciosa correr deixando-nos sentir o cheiro do verão lá fora.


O quarto reflectia a pouca luz que conseguia trespassar os grossos cortinados. O verde que os envolvia era quase uma penumbra. Os olhos ainda habituados à luz lá de fora tentavam perceber as linhas do rosto. De repente pareciam estranhos frente a frente, uma sensaçãode leviandade que afasta e repele, mas que o desejo depressa aniquila.

Reprodução por Ana Costa de Luis Royo
 Ana´s Art Gallery
O cheiro a pó entranhado em todos os tecidos do quarto liberta ainda um odor  passado não muito longínquo de quando ainda se podia fumar ali. Felizmente o  cheiro do seu pescoço entranhava-se no nariz dele sobrepondo-se a todos os outros. O sabor da adrenalina parecia não ter fim ao espalhar-se pelo corpo, uma sede de prazer, uma sensação de euforia que deixa o raciocínio trôpego, um veneno que embriaga a alma, mas que alimenta a carne.
Os lábios aproximaram-se e tocaram-se num segundo demorado. O primeiro beijo entre duas pessoas será sempre o primeiro beijo, principalmente se forçarmos para que seja lento. Um momento singular que nunca mais volta. 
Os lábios aproximaram-se segundos antes do peito dela se espalmar contra o dele. Ele sentindo o volume do seu peito, ela sentindo a envolvência dos seus braços. Os lábios uniram-se segundos antes de sentirem aquele primeiro esboço de união, um contra o outro num turbilhão de calor por baixo das roupas, objectos de vaidade que já tinham cumprido a sua missão quase por completo. Agora, eram apenas peças a remover daquele jogo, servindo um último intento, o de ir desnudando a pele dos corpos num crescendo de erotismo e sedução até que a carne finalmente possuísse a carne, até que as mãos sentissem nas mãos o corpo um do outro.


Original de Luis Royo
Ela, num ímpeto que não pôde refrear, sentindo-lhe as linhas do corpo que  lhe conduziram a mão na direcção da pélvis quis sentir a rigidez do seu corpo, quis comprovar se era correspondida naquela febre que sentia. Ele, consentindo tal ímpeto, encolhendo a barriga, criando mais espaço na zona da sua cintura, deixando que a mão dela o fosse sentindo calças abaixo num contorcionismo lento e  subtil fazendo suster a respiração. 
Ela, tomando a dianteira da ousadia, ele, deixando-se conduzir. Não que não tivesse a mesma ousadia, mas um homem tenta evitar qualquer impulso que deite tudo a perder. Evita impulsos que possam  mostrar algo que ele na realidade não é. Sabe que nesta altura, por defeito é melhor do que por excesso. Ela conduz, ele deixa-se conduzir, a seu tempo poderá mostrar o que sente, mas por agora é ela que demonstra o prazer que traz dentro de si, respiração ofegante, lábios molhados, cheiros que se intensificam à flor da pele e da boca. Seios que se descobrem, roupa quase arrancada, respirações suspensas quando ela finalmente o sente, uma sintonia que vibra em uníssono, ele numa sensação de libertação sentindo o calor da mão dela apertando o seu desejo, uma rigidez capaz de lhe provar a ela o quanto a deseja. Ela, sentindo-se correspondida na luxúria liberta todo o ar que traz dentro do peito beijando-o numa paixão pura, num beijo prolongado e lascivo como se só agora se entregasse a ele. Na realidade este era o momento, porque na realidade, tudo até aqui não foi nada comparado com o depois. 

Depois do depois, a calma, as roupas no chão, os cabelos desalinhados, a compostura perdida. A vaidade que já não é para aqui chamada, pelo menos para já. Os óculos de sol presos por uma haste à mala dela deixada cuidadosamente em cima de uma cadeira, o saco cor de rosa encostado a um canto do quarto, os sapatos deitados sobre a alcatifa gasta sem o carisma de antes. 
Os corpos prostrados sobre a roupa de cama duvidosa conseguem manter uma réstia de elegância natural. As pernas dela estendidas terminando na curva suave do pé onde a boca dele tanta vez se deitou. Os braços numa pose relaxada emoldurando o rosto e o peito mostrando uma beleza crua e sem adereços. Sob a pouca luz, as costas dele, encostadas a ela, parecem um retrato de anatomia saído do Olimpo. Curvas que vão compondo uma pintura a óleo naquela quietude perfeita sobre a tela de um lençol pardo, um quadro sem título porque o cansaço ainda não permite pensar. Apaixonados pelo sol que não faz sombra, ali ficam, adiando voltar à realidade.


Caminhava como se o mundo não importasse, calças justas, sapatos altos abertos à frente, um tacão elegante, a sola quase nova dificultando o andar sobre o chão polido. Sem perder a elegância, continuou. Óculos escuros apesar da luz artificial. Caminhando como se o mundo não importasse. E na realidade não importava. Pelo menos naquele momento. É que às vezes acontecem coisas dentro de nós que são maiores que o próprio mundo. 
Caminhava como se o mundo não importasse, mala num braço e um saco cor de rosa na outra mão.

Comentários

Pedro Mendonça disse…
Quando propus à Ana Costa escrever sobre um quadro seu, não imaginei que seria este. A primeira impressão é que é um quadro simples mas forte. Precisei de me refugiar em Anais Nin, claro, porque aquilo que o quadro invoca pode facilmente cair na banalidade, e banalidade nesta área deixo-a para o grande Henry Miller (não me querendo comparar com tamanho vulto, claro, ainda sei o meu lugar), portanto, foi o que saiu. Acima de tudo, obrigado amiga, pelo desafio...