inSpirado na reProdução de um quadro de Luis Royo por Ana Costa
O quarto reflectia a pouca luz que conseguia trespassar os grossos cortinados. O verde que os envolvia era quase uma penumbra. Os olhos ainda habituados à luz lá de fora tentavam perceber as linhas do rosto. De repente pareciam estranhos frente a frente, uma sensaçãode leviandade que afasta e repele, mas que o desejo depressa aniquila.
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| Reprodução por Ana Costa de Luis Royo Ana´s Art Gallery |
Os lábios aproximaram-se e tocaram-se num segundo demorado. O primeiro beijo entre duas pessoas será sempre o primeiro beijo, principalmente se forçarmos para que seja lento. Um momento singular que nunca mais volta.
Os lábios aproximaram-se segundos antes do peito dela se espalmar contra o dele. Ele sentindo o volume do seu peito, ela sentindo a envolvência dos seus braços. Os lábios uniram-se segundos antes de sentirem aquele primeiro esboço de união, um contra o outro num turbilhão de calor por baixo das roupas, objectos de vaidade que já tinham cumprido a sua missão quase por completo. Agora, eram apenas peças a remover daquele jogo, servindo um último intento, o de ir desnudando a pele dos corpos num crescendo de erotismo e sedução até que a carne finalmente possuísse a carne, até que as mãos sentissem nas mãos o corpo um do outro.
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| Original de Luis Royo |
Ela, tomando a dianteira da ousadia, ele, deixando-se conduzir. Não que não tivesse a mesma ousadia, mas um homem tenta evitar qualquer impulso que deite tudo a perder. Evita impulsos que possam mostrar algo que ele na realidade não é. Sabe que nesta altura, por defeito é melhor do que por excesso. Ela conduz, ele deixa-se conduzir, a seu tempo poderá mostrar o que sente, mas por agora é ela que demonstra o prazer que traz dentro de si, respiração ofegante, lábios molhados, cheiros que se intensificam à flor da pele e da boca. Seios que se descobrem, roupa quase arrancada, respirações suspensas quando ela finalmente o sente, uma sintonia que vibra em uníssono, ele numa sensação de libertação sentindo o calor da mão dela apertando o seu desejo, uma rigidez capaz de lhe provar a ela o quanto a deseja. Ela, sentindo-se correspondida na luxúria liberta todo o ar que traz dentro do peito beijando-o numa paixão pura, num beijo prolongado e lascivo como se só agora se entregasse a ele. Na realidade este era o momento, porque na realidade, tudo até aqui não foi nada comparado com o depois.
Depois do depois, a calma, as roupas no chão, os cabelos desalinhados, a compostura perdida. A vaidade que já não é para aqui chamada, pelo menos para já. Os óculos de sol presos por uma haste à mala dela deixada cuidadosamente em cima de uma cadeira, o saco cor de rosa encostado a um canto do quarto, os sapatos deitados sobre a alcatifa gasta sem o carisma de antes.
Os corpos prostrados sobre a roupa de cama duvidosa conseguem manter uma réstia de elegância natural. As pernas dela estendidas terminando na curva suave do pé onde a boca dele tanta vez se deitou. Os braços numa pose relaxada emoldurando o rosto e o peito mostrando uma beleza crua e sem adereços. Sob a pouca luz, as costas dele, encostadas a ela, parecem um retrato de anatomia saído do Olimpo. Curvas que vão compondo uma pintura a óleo naquela quietude perfeita sobre a tela de um lençol pardo, um quadro sem título porque o cansaço ainda não permite pensar. Apaixonados pelo sol que não faz sombra, ali ficam, adiando voltar à realidade.
Caminhava como se o mundo não importasse, calças justas, sapatos altos abertos à frente, um tacão elegante, a sola quase nova dificultando o andar sobre o chão polido. Sem perder a elegância, continuou. Óculos escuros apesar da luz artificial. Caminhando como se o mundo não importasse. E na realidade não importava. Pelo menos naquele momento. É que às vezes acontecem coisas dentro de nós que são maiores que o próprio mundo.
Caminhava como se o mundo não importasse, mala num braço e um saco cor de rosa na outra mão.



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