DesEJo-tE, Disse eLa

Percorria a cidade sem ninguém a seu lado. Ouvia os seus próprios passos sentindo vontade de se seguir a si própria como se necessitasse que  alguém fosse atrás de si sentindo o cheiro do seu perfume e lhe desse o braço avenida fora. 
Percorria as ruas no caminhar lento que os saltos lhe permitiam. O seu amor próprio não estava em alta nem estava em baixa. Este momento era para além disso. Era acima da vaidade e do quotidiano. Resolvera sair sozinha para espairecer das pressões do trabalho e da família num encontro consigo própria noite fora. 
Os pensamentos corriam-lhe na cabeça, e a paisagem à sua volta corria-lhe nos olhos, automóveis num tráfego típico de fim de semana, uma lentidão normal e sem pressas, um entardecer que em breve iria realçar as luzes da cidade. Restaurantes ainda vazios de pratos e talheres alinhados, aquele cheiro das árvores ao final do dia quando se preparam para dormir e o barulho dos pássaros que se aconchegam nos ramos num chilrear omnipresente. 
Os seus passos demoravam-se como se estivesse adiantada para o compromisso que tinha consigo própria. Consegues ouvir-me, perguntou ela em pensamento vendo passar ao longe
na avenida um táxi vazio.  Parou em frente a uma montra e olhou-se directamente nos olhos vendo no reflexo do vidro  o sol a pôr-se no prédio atrás de si.
Foi nesse momento que ele a viu.
Foi naquele momento que a vi. Ali de pé. Um semblante que me chamou a atenção na profundidade do olhar, na beleza daquela expressão triste, porque a beleza só é beleza quando a vemos. A beleza só por si não existe.
Ali estava ela. E eu parado como se o passeio tivesse acabado e não houvesse para a frente nem para trás. Ela olhou-me de costas pelo reflexo iluminado da montra, ignorando-me numa defesa normal de quem desconfia de alguém que não conhece.
Cheguei-me ao vidro dando uma distância para que em nada fosse ofensiva a minha atitude. Olhando em frente para dentro da loja e não querendo que se fosse imediatamente embora, iniciei um monólogo durante o qual a imaginei a repetir cada palavra que eu dizia. As palavras saiam-me da boca como se alguém mandasse na minha vontade. Cada palavra era dita com uma demora propositada típica de guião. Mas não era um guião que eu seguia, era o coração que me batia no peito num ribombar acelerado. Entre cada palavra ouvia-se o silêncio demorado da minha voz, os carros a passar na avenida atrás de nós e aquele bater dentro do meu peito que eu suspeitava que ela conseguisse ouvir.
Só quero que saibas que não quero nada... Iniciei eu a medo com a voz incerta. Apenas quero dizer que não desistas dos teus sonhos. Nunca mudes... E obrigado... Disse eu dando tempo para que ela me olhasse nos olhos pela primeira vez. Penso que nunca mais nos encontraremos, continuei eu vendo o espanto no seu olhar. Penso que te deverias ir embora agora... Antes que o sol se ponha atrás dos prédios. Ela, voltada para mim, ficou.
Senti o suor nas minhas mãos e quis ficar ali para sempre. Senti o cheiro da sua pele que a brisa do fim do dia me trouxe e quis que ela ficasse ali para sempre.
O tempo parou e juntamente com ele a minha respiração quando ela me perguntou, Consegues ouvir-me?
Ficámos ali parados. Ela à espera de uma resposta, eu à procura de palavras dentro de mim que explicassem o que queria dizer. A vontade que antes me tinha colocado as palavras na boca tinha-me abandonado agora deixando-me o silêncio nos lábios entreabertos.
Tudo se movia à nossa volta, menos nós. Consegues ouvir-me, perguntou ela novamente. Claro, respondi eu finalmente na resposta mais simples e mais sincera que poderia ter arranjado enquanto que dos meus lábios se soltava agora um sorriso tão humilde quanto a minha resposta. Ela sorriu um sorriso simples e sincero que me permitiu ver quem era. Olhei para dentro do seu mundo e percebi porque tinha dito o que tinha dito.
Sentados num banco de jardim no meio das árvores da avenida, falámos sem rodeios como se nos conhecêssemos desde sempre. Falámos de saudade. E sentimos saudades. Falámos de mundos que apenas os nossos olhos vêem. E vimos o mundo um do outro no silêncio das nossas vozes. Sentimos as palavras que cada um disse no momento exacto em que as dissemos. Lemos as palavras que cada um escreveu no improviso de um bloco que ela trazia dentro da mala, sentindo cada palavra como se o sol  já longe atrás dos prédios se tivesse posto dentro de nós. E ali ficámos como se os dias passassem por nós. Como se aquela noite fossem dias uns a seguir aos outros, noites após noites sem relógios capazes de medir o nosso tempo.
Sonho neste momento fazer amor contigo, dissemos nós já sem receios nem pudor, quando de tudo apenas nos faltava isso no ecrã daquele sonho que ali vivemos. Sonho impossível, agora que acabámos de ver o sol nascer para além do rio. Sonho impossível, sabendo que hoje não podemos ficar, porque afinal o relógio não para.
Desejo-te, disse ela. Eu sorri dizendo-lhe sem qualquer palavra o quanto queria sentir a curva dos seus ombros no calor dos meus lábios. Desejo-te, disse ela olhando-me directamente nos olhos. E eu senti a curva dos seus ombros no calor dos meus lábios, 
a textura da sua pele na minha boca, as curvas e o calor do seu corpo nas minhas mãos  afogando-me no cheiro do seu pescoço como se ali quisesse morrer.
A trapalhada em que nos metemos, disse eu sorrindo tentando minimizar toda a emoção do momento. E eu desejo-te, apenas porque vejo para além do que és, disse ela.

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