Mel ou Merda

Eh lá, que é lá isso, asneirolas a esta hora? Perguntam vocês. 
Bom, em primeiro lugar, ‘merda’ vem no dicionário, como calão é certo, mas se vos tranquiliza mais, fiquem sabendo que ‘merda’ é um calão que vem do latim, caso não soubessem, o que a torna um clássico. Em segundo lugar, as coisas têm que ser chamadas pelos nomes com os quais se identificam melhor, e se mel assenta que nem uma luva no que vos vou falar, merda também. Eu passo a explicar.

Há uns anos atrás, um grande amigo meu, confessou-me numa explicação simples e rodeada de exemplos práticos, uma teoria que me deixou rendido desde logo. Sabes que agora ando na fase do mel, disse-me ele. E eu questionei-me sobre o que estaria a falar. Do que é que estás a falar, perguntei. Estás na fase do mel? Eh, pá, continuou ele, sabes que eu tenho duas fases, ou é mel ou é merda. Perante a minha cara de interrogação ele continuou.

Nunca te aconteceu? É que isto é cíclico. Ou se está numa fase ou se está na outra. Sabes que existem aquelas alturas em que por mais que tentemos, por mais telefonemas que façamos, por mais gente que se conheça, por mais vontade que se tenha, por mais sementes que se deite à terra, ninguém nos liga, ninguém nos sorri, ninguém nos olha com aquele olhar diferente de como quem nos quer conhecer. Isso é a fase da merda.
Larguei logo ali uma gargalhada. Eh pá, pois é, comentei eu, tens razão, não tinha pensado nisso dessa forma, é mesmo isso, afirmei eu com um sorriso estampado no rosto como se tivesse descoberto uma fórmula qualquer. Depois existe a fase do mel, continuou ele, mas a fase do mel não é repentina, começa devagar. Primeiro, encontra-se alguém com quem gostamos de estar, com quem até calha sairmos um dia e começa a surgir ali qualquer coisa. Essa pessoa mostra algum interessa e tu pensas, Olá, que isto começa a interessar. E quando dás conta,  telefona-te alguém, mulher neste caso, claro, com quem já não falas há imenso tempo, e tenta marcar um café exactamente no dia em que combinaste voltar a sair com a tal pessoa. E tu pensas, Estive tanto tempo para aqui enfiado, com o computador como meu único ouvinte e agora calha-me isto assim. Tentas arranjar uma solução e sentes-te bem contigo próprio porque parece que afinal voltas a ter uma vida social. Sais noutro dia com uns amigos, só mesmo para descontrair, e por coincidência conheces outra pessoa com quem sentes uma empatia especial e que te sorri com um brilho nos olhos e pensas, Devo estar na fase do mel. Só pode. E apercebes-te que os próximos tempos vão ser agitados.


Já se passaram uns anos desde que ouvi esta teoria pela primeira vez da boca desse meu amigo, mas o que é certo, é que vez após vez, num ciclo de certa forma aleatório, estas fases acontecem. E o que é mais interessante é que não se trata de sugestão da minha parte, porque já partilhei estas noções com várias pessoas e todas elas reagem como eu reagi. Reagem sorrindo como se lhes estivesse a dizer uma verdade absoluta à medida que lhes vou explicando os pormenores da coisa. E todas elas concordam que já lhes aconteceu. E o que é ainda mais interessante, é que não se trata apenas de um fenómeno estritamente masculino. É que já expliquei isto do mel ou merda a mulheres, e também elas me confessaram que já lhes tinha acontecido esboçando de imediato um sorriso rasgado no rosto como se eu tivesse acabado de fazer um truque de cartas bem feito. E sendo assim, começo a considerar que este fenómeno é uma coisa, de certa forma, universal. Se bem que no caso das mulheres, penso que deverá haver um rácio a cair mais para o lado do mel. Digo eu. Sem dados precisos.

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