Viajo neste momento sem preocupações com uma calma típica de Agosto. Agosto esse, que ainda não chegou, mas com esta coisa a que se chama mudança natural das coisas, as estações do ano andam às avessas como vocês sabem. Não que o mundo esteja desgovernado e se encaminhe para o final dos tempos como muitos de nós profetizam, Nostradamus de trazer por casa, tentando afastar o receio que na realidade têm. Não. O mundo apenas muda, só que as pessoas, também elas avessas às mudanças, característica tão humana, vão dizendo em conversa de elevador, O tempo anda todo trocado, não sei onde é que isto vai parar.
Na realidade sempre foi assim. E acreditando nisso, viajo sem preocupações com esta calma típica de Agosto.
Corre lá fora a paisagem, como se diz nos romances. Mas em abono da verdade, a paisagem está ali muito quietinha, nós é que passamos a correr. A paisagem deita-se nas bermas da estrada desde que o sol nasce até que se põe. E se caso nunca deram conta, garanto-vos que fica lá também durante a noite. Só que como normalmente está mais escuro, passa despercebida com os faróis na estrada e com a árvore de natal do tabliê que os carros modernos trazem hoje em dia.
Assim sendo, sou eu que corro descansado aqui dentro vendo a paisagem lá fora. Um cheiro a calor que sai do feno. Um cheiro a pólen que sai das flores. O cheiro do vento que na realidade é o cheiro de tudo misturado. No alto de um cabeço, uma estufa não sei de quê. Imagino que é de flores e tento imaginar o mar de cheiros que ali não estará. Um mar de sensações olfactivas capazes de nos transportar à infância, um mar de sedução onde facilmente nos poderíamos apaixonar por alguém. Por isso é que o negócio dos perfumes nunca irá acabar, porque as pessoas querem ter estufas de flores só para elas dentro de frasquinhos.
De repente um enjoo. Não do cheiro das flores, mas deste interior. Um cheiro recalcado nos estofos e no forro do tejadilho já encardido. Um cheiro recalcado que o ar condicionado emana como se o ar que circula tivesse sido sempre o mesmo desde a primeira vez que funcionou. De repente um enjoo, janelas novamente abertas deixando o calor entrar e o fresco sair arrastando atrás de si a náusea. É que caso não saibam, para os felizardos que em pequenos nunca enjoaram de carro ou para aqueles que nunca pensaram sobre isso, o enjoo de andar de carro não se deve tanto à viagem em si nem aos balanços, mas sim ao cheiro que o carro tem. Em pequeno, se levasse uma janela aberta nunca enjoava. Claro que no inverno era pior. A chauffage intensificava o cheiro e quem viajava comigo não estava para gramar o frio que a janela aberta deixava entrar. De maneira que lá tinha que ir intercalando o meu enjoo com o frio dos outros. E se passássemos por uma vacaria ou estrebaria, aproveitava logo para abrir a janela, porque o cheiro a estrume, pelo menos no meu caso e isto é a mais pura das verdades, dissipava quase por completo a minha náusea e transferia-a para os outros. Porque para os outros cheirava apenas a estrume, mas para mim era um antídoto. E então, refeito temporariamente da indisposição, dizia para mim próprio, tomem lá que é para saberem o que custa.
Viajo sem preocupações numa calma estival deixando os pensamentos deslizarem de mim sem pressa. Abandono a rigidez do corpo, semicerro os olhos e deixo o cabelo revoltar-se com a cabeça parcialmente fora da janela. Levanto uma mão e faço-a dançar ao vento atrás do retrovisor num jogo de desequilíbrio controlado. O cheiro do calor arde nas narinas. Uma picada no braço leva-me a olhar para as pequenas manchas verdes no pára-brisas relembrando-me a fragilidade da vida. E pergunto-me qual será a diferença entre nós e aqueles insectos incautos que se atravessam assim à frente de um carro em andamento. Sabem lá eles de estradas e automóveis. Sabemos lá nós se outros mundos gigantes não girarão também ao nosso redor.
A Polly Jean canta para mim vinda do CD e apaixono-me pela vida como se tivesse dezanove anos, a diferença é que aos dezanove ela cantava em cassete. A curva da estrada coloca o sol do meu lado e sinto a face quente, alimentada pelo calor. O carro abranda, encosta-se à berma e para. Saio e estico as pernas. No seguimento estico o tronco e os braços em direcção ao céu. Afasto-me da berma e caminho em direcção a uma árvore já ali a três ou quatro metros. Sob o sol de verão, no meio do campo, a sombra das árvores são ímans de pessoas. Os canudos secos e espetados no solo dos cereais já colhidos, estalam debaixo dos pés numa espécie de crepitar de lenha a arder, mas sem lume. Alcanço a sombra e um equilíbrio instantâneo envolve-me da cabeça aos pés. Sinto que saí da estrada e entrei na paisagem. Sento-me sem me preocupar com a sujidade. Pernas flectidas, braços sobre os joelhos, mãos entrelaçadas, as costas arqueadas esticando a t-shirt transpirada intensificando a brisa que corre. O silêncio ao redor deixa-nos em paz. Na realidade não é silêncio, porque se ouve a brisa nas folhas, as cigarras omnipresentes, o som do calor que irradia do chão e a Polly Jean que continua ao fundo a cantar pela janela aberta do carro.
Ali sentado, os meus sentidos absorvem tudo. O pensamento torna-se abstracto e tento esvaziar mente, coisa que na realidade me parece uma utopia. Mas concentrado em não me concentrar em coisa nenhuma, deixo-me pairar naquele momento como se durasse uma vida inteira. E na pele sinto a brisa, nos olhos sinto as cores, nos ouvidos a melodia da terra, nas narinas o pólen ao sol... Na parede do meu corpo, sinto finalmente o verão.
Voltamos a arrancar da mesma forma que parámos. O calor concentra-se dentro do carro e a pele volta a transpirar sem o ar condicionado ligado. Já pouco importa. A transpiração e o cansaço já só se irão divorciar de mim com o chegar da noite sob um duche morno e egoísta que não olhe à água que se desperdiça.
Cinco minutos depois, o carro abranda a seguir a uma curva ao ver movimento de luzes à frente. O carro aproxima-se e vê-se nitidamente um homem de pé, chapéu na cabeça, botas altas, a desviar os carros que se aproximam para a berma de forma a contornar os carros parados no meio da estrada. O carro aproxima-se, uma mota deitada sobre o alcatrão, marcas distintas de colisão nos rails mais ao fundo. Um carro na berma com o pára brisas estilhaçado. Uma rapariga sentada na berma a ser assistida por alguém. Os seus olhos com lágrimas parecem agora vazios, sem emoção. Uma senhora sentada num dos carros parados, apoia o rosto numa mão deixando as lágrimas cair cara abaixo sem um único som. Os lábios entreabertos são o retrato da desilusão do mundo. Um corpo tapado por uma espécie improvisada de lençol termina num rasto escuro que se vê ao passar mais perto que é sangue. Na curiosidade mórbida que nos está nos genes e que ainda ninguém me soube explicar, olho para trás e vejo junto ao outro lado do lençol um braço arrancado do corpo que alguém, com o sangue frio da profissão, teve coragem de ali colocar. Um sapato na berma parecendo um trapo abandonado há muitos anos, deixa uma história por contar.
Tudo fica para trás. A náusea que fica na boca do estômago é agora diferente. A música do CD volta lentamente aos ouvidos como se tivesse ficado na pausa, coisa que não ficou, os ouvidos é que a ignoraram perante o choque e o retrato do desespero. O sol volta a brilhar e avançamos estrada fora num cortejo fúnebre dentro de nós. E na parede do meu corpo, neste momento, não consigo sentir nada.




Comentários
O que lhe posso dizer é que a ficção é muitas vezes realidade para uns, parecendo a realidade, muitas vezes, pura ficção. Tudo se mistura. A vida é assim. Mesmo que não tenhamos vivido certas coisas, acabamos sempre por viver através dos olhos dos outros...