NiNfa

Nesse mundo onde estás, imóvel aos olhos dos outros, és reflexo de mim, és mundo interior que os meus olhos entendem sem espanto, mundo interior irmão do meu, porque irmãos somos na forma de sentir. 

Não quero saber o que vestes. Quero saber quem és. Veste uma túnica velha e caminha descalça que para mim é igual. Não quero saber do teu corpo, mas quero olhar os teus olhos. Não quero saber do teu corpo, mas quero ouvir a voz do teu sorriso enquanto falas palavras de entendimento. Não quero saber o que vestes, mas quero despir-te. Não quero saber do teu corpo, casulo que suporta a tua essência, mas quero sentir o teu calor. Quero tocar a pele que esconde a emoção do desejo. Quero abraçar quem és para além do que se vê. Quero alcançar as portas de deus entregando a carne à
carne. Quero alcançar as portas da Deusa mãe e entregar a essência de cada eu que temos, num vaso sagrado chamado Nós. Quero alcançar a essência do que somos numa metamorfose do acto banal da continuidade da espécie... Metamorfose sublime que nos faz tocar a fonte de tudo. 

Não quero saber do teu corpo, mas quero que a união dos nossos corpos nos leve para além dos nossos corpos, nesse ritual que os ancestrais elevaram ao esplendor e que as religiões de hoje destruiram com vergonha e pecado. Não quero saber o que trazemos vestido e os corpos são na realidade coisas secundárias, porque é sentir na quietude dos movimentos a nossa ambição; sorrir e beijar sem boca, abraçar sem toque, pensar sem o pensamento. Conseguir estar não estando em mais lado nenhum, mas estar, conseguindo estar em tudo. 

Nesse mundo onde estou, imóvel aos olhos dos outros, movimento-me sem parar, busco sem me cansar e envelheço sem envelhecer porque o meu espírito é sempre jovem. Neste mundo onde estou, sinto quem está e quem já morreu, como se fosse tudo o mesmo e estivéssemos todos do mesmo lado. Neste mundo onde estou, imóvel aos olhos dos outros, corre uma fonte de emoção que nasce não sei onde e que alimenta este que está cá dentro. Neste mundo onde estou, imóvel aos olhos dos outros é onde quero que estejas, porque este mundo onde estou, repleto de tanta coisa, é também ele tantas vezes a casa onde a solidão vem passar dias a fio. Porque neste mundo onde estou, tu és ninfa que mais ninguém vê, e eu nada sou, invisível aos olhos dos outros.

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