Vocês Já sabiam iSto

Sai à pressa com um sorriso na boca mesmo antes das portas se fecharem arrastando atrás de si a mala e um saco. O sorriso é uma espécie de vergonha e contentamento por se ter levantado ainda a tempo de sair da carruagem. No segundo seguinte, anunciavam o fecho de portas com os três apitos característicos, que alguns arriscam desafiar à laia de Martim Moniz dos nossos dias, mas para proveito próprio, não da nação e com um risco de morte ínfimo, claro está. As portas com borrachas nas extremidades, são uma guilhotina de brincar que se pode desafiar, obtendo não mais do
que uma nódoa negra ou duas na pior das hipóteses. Por isso arrisca-se.

Nem as ratazanas conseguem ser tão más, diz alguém como se anunciasse uma verdade pomposa, um senhor de meia
idade, cabelo grisalho e já ralo, soltando uma gargalhada aos solavancos, olhando para outro tentando perceber se concorda consigo ou não. Desculpe lá, pensei eu, mas apesar de só ter apanhado a conversa agora, isso não teve piada absolutamente nenhuma. Mesmo que seja a dizer mal dos governantes que nos arruinam.
Já repararam que em pensamento para nós próprios
conseguimos alcançar pensamentos e dissertar sobre teorias muito mais complexas, do que 
numa conversa de rua? Ora bem,  encontramos alguém, e já não falo nos encontros casuais com menos de cinco minutos, que esses só servem para falar do tempo, dizer mal do governo ou para trocar números de telefone. Mas a verdade é esta, encontramos alguém conhecido, ou pouco conhecido que até é o normal, e de uma forma geral caímos logo na banalidade. Conversa de chacha, comentários ignorantes de papagaio que leu o jornal hoje de manhã, piadas parvas e batidas. Na realidade, e muitas das vezes, nem queremos saber nada sobre as perguntas que fazemos. Muitas vezes não queremos dizer nada sobre o que nos perguntam. Mas continuamos a fazer uma cara de interesse apenas por educação esboçando um sorriso que na realidade acaba por ser cínico. Fazemo-lo exactamente como a outra pessoa mas ao contrário, porque estamos do lado de cá.

Saiu à pressa com um sorriso na boca mesmo antes das portas se fecharem. Se as portas se tivessem fechado antes de conseguir sair, iria continuar a sorrir. E essa reacção explica-se facilmente. É uma defesa que muitos utilizam mas que, sem saberem explicar, não utilizam no seu potencial máximo. É que se formos os primeiros a rir de nós próprios quando cometemos um erro ou gafe, deitamos por terra o gozo ou o ataque que os outros nos poderiam fazer. Simples, não é? Mas vocês já sabiam isto.

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