As miúdas giras não cagam - Revisitado


baseado na crónica homónima do Trolha - ver o original em  Crónica do troLha

Com o passar dos anos, certas ideias parvas acabam por passar. É certo que a inocência se vai perdendo com o tempo, mas felizmente, por outro lado, passamos a ver as coisas como elas são realmente, com naturalidade.
Lembro-me perfeitamente que da primária até à adolescência era um perfeito tabu falar em frente a uma miúda gira sobre ir à casa de banho. Aliás, era um perfeito tabu falar em ir à casa de banho com quem quer que fosse. Entenda-se ir à casa de banho, todas as visitas superiores a dois ou três minutos e que  não se destinassem a lavar as mãos, beber água ou fazer xixi. 
Se me encontrasse, por exemplo, num grupo onde estivessem miúdas, principalmente se fossem giras, eu reprimia conscientemente qualquer assunto relacionado com casas de banho não fosse a conversa descambar e uma pessoa descair-se e falar em ir à casa de banho fazer um cócózito que fosse. Isso era impensável. O que é que elas iam pensar? Ah, este gajo caga! Que nojo. Não que mo dissessem ali directamente, mas os sorrisos entre elas e a
troca de olhares silenciosos, significariam que iriam comentar e rir com toda a crueldade quando estivessem sozinhas a estudar mais tarde em casa de uma delas.

    Nem pensar. A minha reputação não podia ser abalada assim dessa forma. Já não bastava ter cara de quem tinha menos três ou quatro anos, coisa que agora até dá jeito, mas que na altura era um incómodo tremendo, e ainda para mais elas passarem a ter a certeza que eu cagava. E não é só o facto de cagar, é tudo o resto associado. É a imagem que sai disparada de um gajo com um pedaço de papel na mão, rabo alçado, calças em baixo, desprovido de dignidade naquele momento cuja fronteira entre um bocado de merda e as nossas próprias mãos é um papel dobrado ao meio. 
Papel. Isso  é outra das coisas, o papel higiénico. Depois daquilo, o papel é tudo menos higiénico. E só de pensar que o papel higiénico é normalmente reciclado, faz-me confusão. Pensa-se em reciclado e pensa-se que aquele mesmo papel já andou a limpar outros cus. É claro que o papel reciclado que vai para papel de casa de banho é reciclado de papel de escritórios e afins, mas mesmo assim, custa-me imaginar que limpo o cu a uma folha de excel, formulário mal preenchido ou relatório de uma qualquer empresa ou repartição pública onde um mar de gente já pôs as mãos. Custa-me, não sei. Ali de calças em baixo, papel na mão, parece que consigo imaginar toda aquela gente ali parada a olhar para mim. Estúpido, dizem vocês, mas da próxima vez que forem à casa de banho conversamos. Quer dizer, irão conversar vocês entre dentes, lembrando-se disto mas sem dar o braço a torcer.

Mas onde é que eu ia? Ah! Miúdas giras. Pois é. Quando somos mais novos acreditamos em coisas palermas. Realmente palermas. Eu,  por exemplo, quando era miúdo, não queria que as miúdas giras soubessem que eu ia à casa de banho, porque, para além das razões já explicadas, não queria que elas me achassem de um mundo à parte. E isto porquê? Porque eu acreditava piamente, que as miúdas giras não cagavam! Tinham largado as fraldas em pequeninas e pronto. É verdade! Eu acreditava que as miúdas giras não cagassem. Juro-vos. As miúdas feias, essas, ainda vá lá, eram feias. Não  tínhamos interesse nelas. Estavam entre o grupo dos rapazes e o das miúdas, propriamente ditas. As miúdas feias eram uma espécie de híbridos, assim como os miúdos gordos. Agora as miúdas giras... Como é que uma miúda gira limpa o cu? Não limpa, por favor, isso é impensável, é baixo. Até porque as miúdas giras não tinham cu, tinham era peida. E que podia ser boa ou menos boa. 
Nós conseguíamos imaginar uma miúda gira sentada na sanita, sem problemas, calças em baixo ou saia para cima, mas apenas apenas para fazer um xixi, porque naquela altura uma miúda a fazer xixi era sinónimo de vagina. Agora cagar, era sinónimo de merda. Como é que a miúda mais gira do liceu poderia ficar apenas com um bocado de papel de consistência fraquinha entre as suas mãos e um pedaço de merda? Não podiam. Elas não podiam cagar. Decididamente, elas não poderiam cheirar assim tão mal.

baseado na crónica homónima do Trolha - ver o original em  Crónica do troLha

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