Puxou de uma caneta e sentado no único lugar junto à montra do café que tinha sombra começou a escrever num livro de apontamentos imaculado, capa preta por fora, folhas lisas por dentro. Todas em branco.
Pé ante pé, como se nada fosse, vens,
Noite que na madrugada estremece a pele...
Divaga a mente nos sonhos que tens
Tentando afogar mágoas que manténs;
Noite doce, sabendo a fel.
Diz-me agora o que no passado me disseste,
Doença da alma, que tanto mal me fizeste...
Agora que curado vejo a verdade crua -
Corri a cidade, louco, impelido para a rua,
Um escravo sem desejo, a teu mando;
E lembras-te, em desespero quando,
Te desejava numa vontade sem fome nem sede;
Tu, a maior paixão que o meu coração já teve…
Olhou para o relógio na parede lateral por cima da máquina do café e deu por terem passado pouco mais de cinquenta minutos. A cadeira à sua frente sem ninguém. Olhou lá para fora e deixou-se divagar nos passos de quem passava e tentou adivinhar os sentimentos que as pessoas traziam no semblante do rosto. Em vão, pensou. Não sei o que sinto quanto mais o que sentem os outros.
A cadeira ainda vazia. Os olhos sobre os ponteiros do relógio novamente. A caneta riscando o que tinha escrito. O livro imaculado tinha perdido a pureza. Era assim que se sentia, atraiçoado pela caneta de deus, não interessa qual deus, porque na realidade era apenas uma força de expressão. Atraiçoado pela caneta de deus que tinha acabado de riscar o futuro que ele aguardava. Um futuro que acabou por não chegar apesar da hora combinada já ir longe. A cadeira vazia, os ponteiros do relógio sempre para a frente, nunca para trás, a caneta guardada junto ao caderno, o dinheiro do café em cima da mesa. Ao passar pela montra cá fora, as duas cadeiras lá dentro, vazias, alinhadas pelo empregado. Dinheiro recolhido, à conta, sem gorjeta.
Rua abaixo, diferente de como quando veio para cima, uma alegria nos lábios, um mundo cheio. Agora o desapontamento, um vazio. Mas as coisas são mesmo assim, porque de um momento para o outro, nada.

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