a Distribuição dA Riqueza

A vida é curta de mais para viver tudo aquilo que poderíamos viver, ou então sou eu que não tenho dinheiro suficiente. Quero dizer, não tenho o dinheiro suficiente para deixar de fazer certas coisas que me ocupam o tempo. Não tenho o dinheiro suficiente para não ter que ter um emprego, o que não quer dizer que não trabalhasse - quando se trabalha naquilo que mais se gosta de fazer, tem-se trabalho, mas não se trabalha, acho que todos compreendem isso. Por outro lado, tenho um quotidiano que me divide no pai, no marido, no filho, no profissional, no técnico, no administrador do condomínio, no amigo, no conhecido do conhecido, no gajo que vai às compras, no dono do cão que vai com ele à rua quando os  outros ainda estão deitados, um quotidiano que me divide em ainda mais personagens que não me estão a ocorrer agora. E não me entendam mal, porque ser tudo isso é bestial e é isso que nos define no mundo. Até porque muitas das coisas que somos, fomos nós que escolhemos ser, fomos nós que escolhemos fazer. E também não me julguem ingrato, porque não se trata de ingratidão. Trata-se de cansaço. É que às vezes, o cansaço supera o dia a dia desse quotidiano e só nos apetece parar um instante para sermos nós. Nós para nós próprios. 

Nunca vos aconteceu? Apetecer-vos estar a sós assim um pequeno instante naquele momento, e só o conseguirem passados alguns dias, quando já quase se tinham esquecido disso, quando finalmente se vêm livres das obrigações que por uma razão ou por outra, têm mais prioridade do que vocês próprios? E a questão é mesmo esta, a prioridade das obrigações. E acho que todos percebem o que quero dizer. É que um biberão, o banho dos miúdos, o jantar, as contas, a atenção aos que nos são próximos e toda essa panóplia de obrigações, têm sempre prioridade sobre a página que estamos a escrever, sobre o treino que queremos fazer hoje, sobre os acordes do novo tema em que estamos a trabalhar, sobre a edição daquela fotografia que tirámos a semana passada, sobre o projecto x ou sobre o projecto y, sobre aquele livro ou aquele filme. E sobre tudo isto, a maior prioridade ainda, acaba por ser o emprego. Emprego esse, cuja função é pagar tudo aquilo. Mesmo que o emprego até seja uma coisa que se goste muito de fazer. Mas como temos que o fazer mesmo quando não nos apetece, passa rapidamente a ser um emprego. Apanharam esta?


Pronto, pronto, acalmem-se lá, que já estou a imaginar o que muitos já estão a dizer, como se houvesse muita gente que lesse o que escrevo, mas caso houvesse, estariam já a apontar-me o dedo e a dizer, O que tu querias era só fazer o que te apetecesse, pagares para que te fizessem tudo aquilo que não quisesses fazer, mas isso também nós. Ter dinheiro suficiente para poder fazer apenas aquilo que se quer, não é? Isso também eu queria, diriam todos. E eu digo-vos que é exactamente isso! E agora pergunto eu, qual é o problema disso, sabem-me dizer? O problema meus amigos, é que se todos fizessem apenas aquilo que quisessem, seríamos todos muito mais felizes durante um dia ou dois. No máximo. E depois o mundo parava. Parava simplesmente. A maior parte das coisas deixariam de ser feitas e o mundo parava. Quem é que não percebe isto? 

E por isso, apenas por isso meus amigos, é que a riqueza está mal distribuída. Poderia estar um bocadinho melhor, dizem vocês, e é verdade, até poderia estar sim senhor, que existe para ai muita miséria. Mas não poderia estar muito mais, acreditem. É que o facto de a riqueza estar mal distribuída é uma espécie de desígnio superior da Humanidade, um desígnio superior da Sociedade que funciona como uma auto-defesa de sobrevivência colectiva. Poderá até ser um desígnio de deus, se quiserem. Mas é devido à riqueza estar mal distribuída, que a humanidade sobrevive, é por isso que a humanidade continua a respirar. Porque muitos fazem, não aquilo que gostariam de fazer, mas aquilo que podem para sobreviver eles próprios, ou seja, trabalham, têm um emprego e mantêm o mundo a girar. 
E assim somos nós, ou pelo menos a maior parte de nós, que com pouco, administram muito, que com o dinheiro próprio e não com o dinheiro dos outros, administram orçamentos familiares milagrosos de se lhe tirar o chapéu e que deveriam dar workshops de gestão a muitos gestores públicos, ministros da economia ou das finanças. E assim somos nós, ou pelo menos a maior parte de nós, com obrigações, com tarefas, com empregos, com contas por pagar, com contas pagas mas por arquivar, com filhos, com cães, com pais, com amigos, com colegas, com milhares de coisas que nos afastam de nós próprios ao ponto de termos por vezes, saudades de estarmos apenas sós.

A realidade, meus amigos, é que mais importante do que a página do livro ou do blog que queríamos escrever, mais importante do que tudo o resto que gostaríamos de fazer mas que não fazemos porque não temos dinheiro suficiente, mais importante do que tudo isso, e é por isso que a riqueza está mal distribuída, é que temos que manter desta forma, a humanidade viva e a respirar.

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