A QuaRta iDade


Cyclist:
 "So, what's the worst part about being old, Alvin?"

Alvin Straight: 
"Well, the worst part of being old is rememberin' when you were young..."

in The Straight Story
David Lynch


Os seus pés repousavam no leito raso do ribeiro. A água fria e transparente deixava ver os pés perfeitos e a pele jovem ainda muito branca. Aos oito anos, que pele não é perfeita? Aos oito anos, que pés têm calosidades e imperfeições? Aos oito anos tudo é intenso porque o mundo ainda é novo e as sensações, essas, ficam gravadas na memória como se esta fosse pedra esculpida. 
O cheiro do sabão azul e branco pairava no ar como se fosse mais uma das muitas espécies de flores que perfumavam o campo sob o sol da manhã. As senhoras, mais abaixo, lavavam as roupas brancas em cima de pedras largas e polidas pela água, cantarolando lenga-lengas de lavadeiras.

Os seus olhos abriram-se num solavanco interior. A boca semi aberta assim permaneceu até conseguir perceber onde estava. A cabeça inclinada para trás apoiava-se no topo das costas do cadeirão onde estava sentada. Os braços abertos e descaídos, as palmas das mãos viradas para cima, as pernas quase esticadas a pender do assento, um pé cruzado por cima do outro, os chinelos no chão mesmo ali ao lado dos pés. Os olhos guiam o olhar para a televisão sem som sobre a cómoda à sua frente. A boca fecha-se compondo a prótese que tinha descaído entretanto dentro da boca. A cabeça move-se e o pescoço dói-lhe. Nos braços sente uma dormência ligeira. As pernas inchadas doem-lhe numa dor crónica à qual já se habituou. 

A Dona Antonia deve repousar as pernas na horizontal e de preferência um pouco mais altas, dizia-lhe o médico vezes sem conta, mas o cadeirão era o seu lugar de eleição. As insónias da madrugada tiravam-na muitas vezes da cama para se sentar no seu fiel companheiro que ao longo dos anos já se tinha moldado à forma do seu corpo e ao peso em excesso que adquirira. As madrugadas eram assim muitas vezes passadas naquele estado de semi vigília. Olhos ora olhando para dentro de si, ora olhando para a rua deserta através da frincha do estore. De vez em quando lá passava um carro abafando o programa de rádio que saía do aparelho a pilhas em cima da mesa de cabeceira. De vez em quando lá tocava a campainha da passagem de nível ali perto rasgando o silêncio da madrugada. O comboio tardava  muitas vezes prolongando aquela algazarra nocturna, mas lá acabava por passar na sua cadência típica, deixando o silêncio atrás de si conquistar novamente a noite.
O cheiro a urina mistura-se no ar viciado do quarto. O bacio tapado ao lado da janela, modelo alto, que tanto lhe custou a encontrar, próprio para pessoas idosas, foi a solução que arranjou. É que os dez ou quinze metros até à casa de banho feitos à noite quando as pernas teimam em não andar tolhidas pela dormência e pela inércia, tornam-se uma distância olímpica para a resistência de uma bexiga velha que luta dia a dia com uma incontinência crescente. 
O desgaste dos anos acumula-se na caixinha de comprimidos cada vez maior que serve de compensação às insuficiências do corpo. A caixinha ao lado de uma chávena de chá frio, a chávena de chá frio ao lado de meia carcaça de pão sem nada sobre um guardanapo de papel. É que a diabetes, ou os diabetes como o povo lhe chama, tem que ser alimentada mal dá sinal.
Os dias e as noites são passados assim numa semi vigília de consciência, onde o passado se mistura com o ontem e com o agora, como se há um ano fosse a mesma coisa que a semana passada. A insónia torna o dia em noite, as manhãs em tardes e as tardes em crepúsculos avançados alimentando assim ainda mais a insónia. O que vai equilibrando o rasto dos dias são as idas ao médico e as idas à mercearia para as compras que vai fazendo amiúde.



Sentada à beira do ribeiro chapinha os pés na água cantarolando a mesma melodia das lavadeiras. Sabe que deveria estar a aprender a lida da roupa ao lado da sua mãe, mas o mundo é muito mais interessante e naquela idade o mundo é  todo ele uma brincadeira constante. Naquela idade, aquela que é a sua primeira idade, a vida é longa e a velhice é uma coisa de adultos que nada tem a ver consigo. E inconsciente dessas coisas da idade, puxa o vestido à altura dos joelhos para que a água não o molhe e sente uma alegria dentro de si como se não houvesse amanhã. Inconsciente do futuro, inconsciente que passará por uma segunda e por uma terceira idade. 

Terceira idade que apenas ouvirá falar anos mais tarde quando se tornar moda. Essa mesma terceira idade que lhe vai permitir poupar algum da mísera reforma quando comprar o passe dos transportes públicos com o desconto para reformados. Reforma essa que irá conseguir porque irá um dia para a cidade, porque os que irão ficar na aldeia nem isso terão. Essa mesma terceira idade longínqua que não será a última, porque depois da terceira ainda existe uma quarta. Uma quarta idade que não tem idade certa para ser, porque a quarta idade é aquela altura em que os tempos verbais se confundem e em que as palavras ditas se confundem com as que ainda não se disseram. Uma quarta idade em que o Natal de há quatro anos em família se confunde com o Natal de há um ano, passado sozinha numa consoada sem tradições. Uma quarta idade em que a decadência do corpo, nos momentos de maior lucidez, é no mínimo, deprimente.  

Uma quarta idade que é no fundo, a ponte entre a velhice da terceira idade e o cansaço de se estar vivo.

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