Existem coisas que se dizem e que dizemos só porque toda a gente diz. Às vezes não dizemos o que deveríamos e quando damos conta é tarde demais. Outras vezes dizemos o que queremos e sofremos represálias. Outras vezes não dizemos nada porque pura e simplesmente o processador das emoções que temos, não consegue converter todos os bits que nos circulam nas veias, no fluxo de código ASCII necessário para que os outros consigam perceber os pixeis das imagens que nos passam à frente dos olhos.
E agora que vos entediei com recursos estilísticos ao preço da uva mijona, vou-me manter na zona do adjectivo da uva e falar-vos de cuecas.
Um par de cuecas. Dizemos que vamos vestir um par de cuecas. Eu não, que uso boxers. Boxer-shorts, e reparem que utilizei o termo completo, para que nunca me acusem de vestir um cão.
Mas quem é que raio veste um par de cuecas? Umas cuecas eu compreendo, agora um par, porquê? Umas por cima das outras, é? Se é por uma questão de incontinência para ter mais absorção, digo-vos que já existem cuecas para adultos da Lindor, passo a publicidade, que são absorventes. Se é por
uma questão de rigidez pélvica, existem cintas unisexo que são desenhadas para esse mesmo efeito e que de certo serão mais eficientes. Ah, já sei. Dizemos vestir um par de cuecas, porque quando compramos cuecas, compramos sempre aos pares nas promoções, pague uma, leve duas. Não? Não é por isso? Bom, então dizemos isso porque muita gente diz e acabamos por seguir esta espécie de procedimento cultural. É isso não é? Em Roma sê romano, que é como quem diz, segue a carneirada.
uma questão de rigidez pélvica, existem cintas unisexo que são desenhadas para esse mesmo efeito e que de certo serão mais eficientes. Ah, já sei. Dizemos vestir um par de cuecas, porque quando compramos cuecas, compramos sempre aos pares nas promoções, pague uma, leve duas. Não? Não é por isso? Bom, então dizemos isso porque muita gente diz e acabamos por seguir esta espécie de procedimento cultural. É isso não é? Em Roma sê romano, que é como quem diz, segue a carneirada.
E como as cuecas até são baratas e o senhor do pronto a vestir está sem trocos, temos que ir ao café da frente destrocar o dinheiro que trazemos connosco. Destrocar dinheiro é outra. Quantas vezes tenho que dizer, que destrocar dinheiro, é, quanto muito, quando a avó nos dá as moedas do porquinho mealheiro e temos que ir trocar aquele quilo de moedas por cinco euros, coisa que parece uma ninharia, mas que quando era mil escudos dava para mandar cantar um cego na rua Augusta até que a voz se lhe acabasse. Pois é meus amigos, estou farto de dizer isto, mas ele há gente que teima em querer destrocar dinheiro quando o que na realidade quer é trocar a nota. Ainda por cima hoje que já ninguém tem porquinho mealheiro. Porquinho “migalheiro” como diz a minha avó, o que até faz sentido, claro, porque o que ela fazia ao longo dos meses era juntar as migalhas do que lhe sobrava nas algibeiras do avental quando ia às compras.
Como costumo dizer, nas pequenas coisas vêem-se as grandes. E como tal, parece-me, mas posso estar enganado, que hoje em dia continuamos a dizer cada vez mais as coisas por atacado, e dizemos cada vez menos coisas a retalho. Generalizamos e somos cada vez menos originais.
Utilizamos termos diferentes, mais neologismos, somos mais In. A cultura é cada vez mais global, é cada vez mais translúcida. Não que isso seja mau, mas é que em contrapartida, somos cada vez menos aquilo que dizemos e aquilo que escrevemos. Somos cada vez menos palavra, e somos cada vez mais imagem. Vejam as redes sociais. Se tiver imagem é bom, se tiver muitas letras não presta. E sendo cada vez menos originais, andam noventa e cinco por cento a partilhar aquilo que cinco por cento cria. Mas se calhar não é bem assim. se calhar são apenas coisas que se dizem.


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