baseado na crónica do Trolha “A minha Pastelaria” em Tabula Rasa - ver aqui o original
Uma destas noites tive um sonho estranho. No mínimo. Era dono de uma pastelaria. O que até não é mau, porque dizem que dá para ganhar quase tanto como um trolha legalizado, e o horário não é muito diferente. O café, por seu lado, dá muito lucro. Dizem.Estava eu atrás do balcao, numa daquelas horas mais calmas, entra um senhor, aproxima-se do balcão e pede um café.
-Ora aqui está um cafézinho. - Disse eu com um ligeiro sorriso na minha facilidade de comunicação. - Então e mais? É só?
-Queria um bolo de arroz, por favor.
-Desculpe mas não temos bolos. - Respondi a seco mas com bons modos.
-Não têm bolos? Então, houve algum problema hoje?
-Não, de forma nenhuma. Nós nunca temos bolos!...
-Como? Nunca têm bolos?... Mas isto não é uma pastelaria? E eu estou ali a ver bolos... - Disse ele apontando para uma das vitrinas.
-Tem toda a razão e disse muito bem, isto é uma pastelaria, mas aquilo não são bolos, são pasteis de nata!
-E não é a mesma coisa? Um pastel de nata não é um bolo?- Perguntou ele com a razão toda na entoação da voz e no sorriso irónico.
Deixei-o a sorrir até a ironia se desvanecer no silêncio que deixei no ar antes de lhe responder.
-Existem pessoas que assim o consideram, mas para mim são pastéis. - Disse eu com confiança.
Ele, fez uma expressão de incompreensão, mas não fraquejou. Ignorou a curiosidade que a minha resposta suscitou, mas evitando o confronto, nitidamente, limitou-se a perguntar:
-Mas então afinal, o que é que tem?
-Pastéis! Tenho pastéis. Pastéis de nata, pastéis de massa tenra, pasteis de Tentúgal, pastéis de bacalhau e todos os outros pastéis que se possa lembrar. Ora chegue aqui fora por favor. - Disse eu fazendo sinal para me seguir enquanto me dirigi para a entrada.
Ele seguiu-me desconfiado até ao exterior.
-Ora aqui está! O que é que diz ali? - Perguntei eu apontando para o toldo. Ele, hesitou por um momento.
-Mas então afinal, o que é que tem?
-Pastéis! Tenho pastéis. Pastéis de nata, pastéis de massa tenra, pasteis de Tentúgal, pastéis de bacalhau e todos os outros pastéis que se possa lembrar. Ora chegue aqui fora por favor. - Disse eu fazendo sinal para me seguir enquanto me dirigi para a entrada.
Ele seguiu-me desconfiado até ao exterior.
-Ora aqui está! O que é que diz ali? - Perguntei eu apontando para o toldo. Ele, hesitou por um momento.
-Pastelaria?!... - Respondeu a medo em tom de pergunta.
-Muito bem! Pastelaria! Pastelaria O Trolha. - Reforcei eu. - Estou farto que façam este tipo de confusão. Pastelaria O Trolha. - Repeti eu devagar para que o cognitivo da coisa lhe chegasse. - O que o senhor procura é uma bolaria! Aqui só vendemos pastéis, daí o nome. Pastelaria, está a ver? Se quer bolos encontra uma bolaria ali mais abaixo, no 18, ou então uma croissanteria no 24. Aqui é o 14 e é uma pastelaria. Uma vez até se passou uma coisa engraçada... A minha prima Odete de Loures, escreveu-me já nem sei porquê, mas em vez do número 14, meteu 24 e foi ter à croissanteria, que é o 24, claro está. Quando lá passei para comprar um croissant para a minha patroa, que ela é que gosta dessas mariquices, a rapaziada de lá até se meteu comigo porque tinha chegado uma carta para o dono, mas tinha o meu nome e eles já julgavam que eu tinha comprado aquilo e que eu é que passava a ser o patrão. Isto explicaram eles depois, porque quando eu entrei lá, só disseram: É patrão!... E eu sem perceber nada. Portanto, o que eu quero dizer com isto, é que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O que o senhor procura é uma bolaria. Vá ali abaixo que eles tratam-no bem, e até têm café e tudo.
-Muito bem! Pastelaria! Pastelaria O Trolha. - Reforcei eu. - Estou farto que façam este tipo de confusão. Pastelaria O Trolha. - Repeti eu devagar para que o cognitivo da coisa lhe chegasse. - O que o senhor procura é uma bolaria! Aqui só vendemos pastéis, daí o nome. Pastelaria, está a ver? Se quer bolos encontra uma bolaria ali mais abaixo, no 18, ou então uma croissanteria no 24. Aqui é o 14 e é uma pastelaria. Uma vez até se passou uma coisa engraçada... A minha prima Odete de Loures, escreveu-me já nem sei porquê, mas em vez do número 14, meteu 24 e foi ter à croissanteria, que é o 24, claro está. Quando lá passei para comprar um croissant para a minha patroa, que ela é que gosta dessas mariquices, a rapaziada de lá até se meteu comigo porque tinha chegado uma carta para o dono, mas tinha o meu nome e eles já julgavam que eu tinha comprado aquilo e que eu é que passava a ser o patrão. Isto explicaram eles depois, porque quando eu entrei lá, só disseram: É patrão!... E eu sem perceber nada. Portanto, o que eu quero dizer com isto, é que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O que o senhor procura é uma bolaria. Vá ali abaixo que eles tratam-no bem, e até têm café e tudo.
Depois disto não me lembro de mais nada. Blackout no país da Alice. Qualquer dia escrevo um livro com estas coisas todas. Se ao menos tivesse jeito até escrevia. Sentava-me lá na obra na hora do tacho e ia escrevendo. O pior disto tudo, é que acho que o gajo não me pagou o café que lhe servi com aquela conversa toda. Logo o café, que é o que dá mais lucro.



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