
Baseado no original de TábulaRasa | dEimproviso
A avenida ao fim da tarde, árvores dum lado e doutro, num crepúsculo prematuro feito de nuvens e aguaceiros acolhe a cave direita do número cinquenta e nove. Aquela cave que dá para o quintal das traseiras com a nespereira e a erva alta.
Desço. As escadas cheiram a humidade. A madeira antiga dos degraus e do corrimão polido, lembra os inquilinos que já morreram. A memória dos mortos persiste no presente como se por ali andassem ocupando as mesmas divisões na rotina diária de sempre.
O pequeno botão preto colocado na ombreira da porta tem muda a voz da campainha. A luz fraca da escada, lâmpada já sem abajur, envelhece ainda mais tudo ao seu redor. Bato à porta com os nós dos dedos. Alguém abre mas não vejo quem é. Entro e fecho a porta atrás com cuidado. Está mais gente em casa mas não se vê ninguém. Os olhos habituam-se ao escuro. Uma vela aqui outra ali vai mostrando os vultos sentados nos sofás e no chão. Pouco a pouco apercebo-me dos sussurros e das conversas entre dentes.
Uma chama de isqueiro acende um cigarro fazendo sobressair os rostos da escuridão como morcegos cegos, pupilas dilatadas contraindo-se nos olhares vazios. A conversa torna-se alta e clara naquele breve momento. O borrão do cigarro torna-se incandescente e tudo retorna à calma com uma baforada de fumo. Tropeço em alguém. Não me desvio a tempo de uma silhueta parada em pé no negrume. Faço-a entornar parte do copo sobre mim. Uma voz feminina pede-me desculpa numa tristeza profunda e apaixonante. Sacudo a mão mas o cheiro a álcool permanece invadindo-me as narinas. Sinto saudades do sabor do álcool e da morte lenta de um cigarro. Abre-se uma porta ao fundo do corredor para lá do fim da sala. Uma luz branca foge lá de dentro. Fogem também vozes e gargalhadas, um tilintar de garrafas e copos. Dirijo-me apressadamente aproveitando a réstia de luz enquanto a porta se fecha novamente. Alcanço-a quando esta se volta novamente a abrir. Peço um cigarro à figura em contra luz que sai. Lume, já agora, peço sem vergonha. Entro. Semi cerro os olhos encadeado pela luz fluorescente que mostra tudo de forma tão crua. As vozes atropelam-se. Coloco o cigarro no canto da boca inclinando a cabeça para trás e franzindo o sobrolho para evitar o fumo nos olhos ficando com as duas mãos livres. Agarro num copo quase limpo em cima da bancada e despejo-lhe o liquido de uma garrafa que me parece whisky. Cheiro-o confirmando que é independentemente da qualidade - um blue label ou malte que seja, ficará para outras núpcias. Levo o copo à boca sentindo o sabor puro do álcool que me arde por dentro. Minimizo o ardor travando o fumo do cigarro enchendo os pulmões. Atesto o copo e saio dali. De novo a escuridão. Fico quieto junto a uma parede bebendo e fumando enquanto os olhos se adaptam. Reparo agora na música que toca. Faltava isto. Este é o meu interior. Tenho as pernas cansadas e os pés dentro das botas gritam liberdade. À medida que o copo vai ficando vazio, as dores diminuem e a cervical relaxa. Preciso de outro cigarro. Aventuro-me na penumbra novamente. Quem me dera encontrar outra vez a silhueta feminina. Quem me dera que ela fumasse. Quem me dera que me voltasse a pedir desculpa...
Desisto. Aqui dentro não está. Tento encontrar a saída das traseiras. À medida que ando os cheiros vão variando subtilmente como se a casa fosse um ser vivo que se mexe muito devagar. Cada recanto seu é uma parte de nós. Cada um de nós ou cada grupo que conversa ou bebe ou fuma em conjunto, é um órgão cuja função desconhecemos. Talvez um rim, um glândula viscosa, um pulmão... A casa respira. O movimento de pessoas que corre na correnteza das divisões cada vez mais cheias é o sangue contido dentro de si. Finalmente a porta que dá para o mundo. Mal se percebe a luz das traseiras a passar pelas frinchas. A porta abre-se e saio. Sou o sangue derramado da casa numa ferida que eu próprio abri. Fecho a porta atrás de mim estancando a hemorragia à flor da pele. Pouso o copo em cima de um vaso e acendo parte de um cigarro que encontrei ao lado de um isqueiro que meti ao bolso anteriormente pensando que me faria falta. Meto o copo à boca poupando o liquido escasso.
O candeeiro que ilumina as traseiras é um daqueles de rua antigos fixo na parede. Acende-se quando as luzes da rua acendem e apaga-se quando a aurora rebenta no canto mais longínquo do céu. Tem uma redoma de vidro a envolver a lâmpada por baixo de um chapéu de metal enferrujado fazendo lembrar o fato chinês que vesti num carnaval longínquo da infância. A luz fraca e envelhecida envolve tudo num amarelo morno quase frio. A lâmpada deve estar ali desde sempre. A luz é tão antiga que a lâmpada é sem dúvida a original que ali colocaram com o candeeiro. Os quintais ao redor, há muito esquecidos deixam crescer ervas livremente. A nespereira está cada vez mais velha. As folhas que caíram por terra jazem num tapete sonoro debaixo dos pés. Os inquilinos anteriores, agora já mortos, devem ter brincado aqui em criança trepando à árvore para depois cuspirem os caroços para longe numa olimpíada secreta censurada vezes sem conta pela austeridade dos crescidos. Os portões partidos e inexistentes permitem uma circulação livre por todos quintais como se tudo fosse de todos. Mais ao longe os pássaros aconchegam-se num limoeiro frondoso, resguardando-se para a noite e para os aguaceiros intermitentes.Encho os pulmões de ar frio como se rebentassem os elásticos cá dentro expulsando o fumo do tabaco e o ar que se respira lá dentro. Alguém acende uma luz num andar superior. Estou resguardado pelo esqueleto metálico da escada de incêndio e ali permaneço quieto. A luz apaga-se. Um cão ladra no quintal de um outro prédio. Sinto-me invisível naquele momento, mas depressa o frio da noite invade o meu lado sóbrio. De repente sinto-me exposto e observado. Nas traseiras do prédio em frente que dá para as traseiras deste, numa pequena janela entreaberta um rosto aparece. E afinal, a luz que apagaram mais acima deixou um par de olhos de rapina observando as presas na erva alta. Um vizinho no alto olhando para mim cá em baixo. O mesmo cuja voz entoará queixas na coscuvilhice do dia seguinte pela festa da cave que durou até altas horas.
Preciso do conforto de estar em lado nenhum. Volto a entrar em casa rapidamente limpando o sangue da ferida deixando a pele da casa encostada ao silêncio da noite. Espero que não infecte. Escuro novamente. A dor cá dentro voltou. Será que uma dor apenas existe quando dói? Será que tudo é apenas aquilo que é naquele exacto momento? Será que os taxistas que correm a cidade durante a noite o continuam a ser mesmo quando amanhã de dia estiverem de folga? Será que uma dor continua a ser, mesmo quando está adormecida e não nos dói?
Só sei que de repente a dor cá dentro voltou. Sinto que estou preso no tempo. Vivo em círculos contidos uns nos outros. Mais tarde ou mais cedo acabo sempre por voltar ao mesmo sítio.
A dor voltou, a tristeza e o vazio... Não sei o que hei-de fazer. Apenas sinto que dói apesar de não ser bem dor. É mais um incómodo que não me deixa estar quieto.
Volto à luz fluorescente. A frio da realidade sob esta luz intensifica o que sinto. E sinto saudades. Umas saudades tremendas não sei bem do quê. Olho as maquilhagens esborratadas e o belo afunda-se nas imperfeições. O perfeito dá origem aos defeitos, à mentira, aos jogos, ao egoísmo. Todos procuram alguma coisa mas continuamos sempre à procura de uma fuga. De um refúgio.
Volto à luz fluorescente. A frio da realidade sob esta luz intensifica o que sinto. E sinto saudades. Umas saudades tremendas não sei bem do quê. Olho as maquilhagens esborratadas e o belo afunda-se nas imperfeições. O perfeito dá origem aos defeitos, à mentira, aos jogos, ao egoísmo. Todos procuram alguma coisa mas continuamos sempre à procura de uma fuga. De um refúgio.
Agarro na primeira garrafa que vejo e encho novamente o copo. Agarro na primeira mulher que olha para mim e peço-lhe um cigarro. Diz-me que só tem aquele que me mostra entre os dedos. Faço-lhe sinal para cravar a amiga que tem um maço na mão. A amiga faz má cara olhando para mim, mas acede ao sorriso da outra. Sorrio em agradecimento e saio porta fora não se lembre ela de começar a conversar cobrando-me o favor do cigarro. Não estou para aturar ninguém.
Novamente a penumbra. Pelo menos tudo aqui é mais bonito oculto pela falta de luz, porque na penumbra o belo parece ainda mais belo e o feio torna-se aceitável.
Este é o refúgio ideal. O escuro, os vícios sem moral ou culpa, as pessoas sem conflitos, sem vítimas ou culpados, a música omnipresente, alternativa por sinal, catapultando os sentimentos como se a vida fosse uma obra de arte, um quadro ou filme surrealista onde o sonho e a realidade pertencem ao mesmo quadrante. O filme europeu a preto e branco com a fotografia perfeita, a página do livro tão bem escrita que os cheiros nos entram nas narinas e os sabores se espalham nas bolinhas da língua responsáveis pelo paladar. O refúgio ideal onde a paixão e o amor se fundem numa noite perfeita capaz de durar uma vida inteira.


Comentários