Dias virão em que as palavras ditas hoje, serão o guia de amanhã. Dias que amanhã, serão ainda hoje um último refúgio de esperança. Dias ignorados pelos outros, que são hoje tudo o que nos resta de ontem...
Onde estás irmã deste sentimento? Onde repousas a cabeça quando apenas eu te oiço?
Trago em mim, soror da minha alma, esta infinita saudade por nada ter no fim deste abraço vazio que mantenho à minha frente.
Inspiras-me numa melodia que trago no cheiro do tempo e que se entranha debaixo da pele. A tua lembrança povoa o sangue que me corre no corpo, uma luxúria platónica que nada de mal nos pode trazer, porque o passado já foi e o futuro não existe. O que conta é hoje, só hoje. E hoje, os dias mostram-nos tudo o que não temos e esquecemos tudo aquilo que já alcançámos... Porque apesar de já termos levantado voo nas asas de um biplano, continuamos a julgar que ainda temos os pés no chão.
Dias virão em que o desespero de sentirmos a casa absolutamente vazia, nos embalará numa melodia negra, numa espiral descendente que abraçamos num cansaço extremo. E será aí que nos encontraremos, porque é aí, nesse quarto escuro onde o nosso mundo habita, que nos despimos do ego e deixamos cair ao chão a máscara que usamos lá fora. E é aí, que passamos a ser nós, apenas nós. E sentiremos uma brisa no rosto, quando olhos nos olhos, a vela trémula que nos ilumina a medo na escuridão, se transformar no sol que trazemos cá dentro...
Dias virão em que as palavras ditas hoje, serão nada mais do que palavras, nada mais do que nada. No entanto, é hoje que as escrevo para ti. E um dia, também eu serei ninguém...

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