Um dia, quando não te vi, naquele dia em que a estação de Santa Apolónia me pareceu gigante, naquele dia em que pela primeira vez lá estive sozinho partindo à aventura da minha própria vida... Nesse dia, em que não te vi, senti saudades tuas porque quis partilhar onde ia... Mas ninguém soube o que senti. Nem tu.
Um dia, naquele dia em que não te vi, as bilheteiras eram um mistério, as linhas dos caminhos de ferro um labirinto e os horários criavam-me a ansiedade de não conseguir chegar a tempo. Coimbra. Ida para Coimbra, disse eu ao senhor através do vidro. Naquele dia, soube que Coimbra tinha duas estações.
Sentado na carruagem, olhei pela janela em redor tentando perceber os rituais da estação. Era um daqueles comboios rápidos, bancos espaçosos... E senti-me confiante porque o primeiro passo da aventura tinha sido dado, bilhete comprado, sentado, esperando o apito da partida. Momentos passaram enquanto os lugares se iam ocupando compondo a carruagem por dentro. Abordado pelo revisor, depressa mostrei o bilhete que mantive a jeito desde que me sentara. Não é este lugar, disse ele. Diz aqui que é este, retornei eu humildemente com o olhar vagueando entre o bilhete e o revisor.
Naquele dia, enquanto me dirigia para o lugar com o mesmo número mas na segunda classe, descobri que o dinheiro evita o constrangimento. E finalmente partimos, mais apertados, menos espaço entre nós, mas nada disso importava realmente.
Junto à janela, vi a paisagem a correr lá fora no compasso marcado pelo metrónomo dos carris, uma melodia que, sem ainda saber, me viria tantas vezes a embalar no futuro. E lembro-me de todas as paisagens que os meus olhos beberam para lá do vidro, porque as lia num livro que as descrevia tal como eu queria que elas fossem. Era um livro de ilusões, um livro que mostra que somos mais do que na realidade julgamos ser. Um livro que aos dezoito, me marcou até hoje. Um livro sobre ilusões e sonhos, sobre vontades e desejos, sobre o que somos por dentro e sobre aquilo que nos rodeia por fora. Naquele dia conheci uma calma que trago ainda hoje comigo.
Saí da estação de Coimbra e dirigi-me à ponte. O encontro que tinha com o destino ficava para além do rio Mondego. Atravessei a ponte e reconheci a entrada daquele local onde em pequeno vi as coisas grandes do tamanho que tinha na altura. Um Portugal em escala pequena, e recordei em imagens difusas pequenos trechos da infância que já hoje não trago comigo. O cheiro de Coimbra era diferente e ao subir a longa encosta, no alto do convento, pude ver a cidade com o coração acelerado na ansiedade que a vida me proporcionava. Mais tarde, à noite, nesse mesmo local lá no alto, longe do burburinho do centro da cidade, paisagem salpicada de luzes amarelas, cheiro no ar que um dia me foi familiar e que agora novamente esqueci, senti que existias para além daquelas ruas, para além daquele rio, para além de todas as vielas que desconhecia. Naquele dia, que noite já era, procurei-te sem saber. Procurei-te não em consciência mas em coração. Procurei-te dentro da ansiedade que trazia cá dentro e na serenidade da noite reflectida no rio, um cintilar que imaginei serem os teus olhos.
Procurei-te sem nunca te encontrar. Por isso, a tristeza era a sombra dos meus passos. E na última noite que lá passei, continuando a não saber, procurei-te em cada ruela como se procurasse alguém nas sombras, uma parte de mim deixada caída num canto, alimentando a angustia que crescia com a partida do dia seguinte. Não queria ir, mas tive que voltar. E hoje, parte de mim ainda lá está procurando por ti.
Os anos passaram e soube depois que nunca exististe. Foste sempre a busca interminável do poeta que não sou. A fome do mendigo que continua a enganar a míngua. Por não existires, as páginas do livro que trago cá dentro, são um código ilegível que os próprios eruditos não percebem. Assim como eu não percebo esta saudade que trago e que continuas a alimentar.
E retirando a esperança do frasco de éter onde a guardei, imaginando que poderás existir, peço-te... Mostra-me tudo pelos teus olhos. Mostra-me as ruas onde passámos de madrugada um sem o outro, sós. Mostra-me os recantos do sótão onde tocámos música nas cordas dos dedos até doerem. Mostra-me os medos que tiveste, a escuridão por onde andaste. Mostra-me tudo... Mostra-me como sorris com os teus olhos quando o sol te inunda a alma. Mostra-me que consegues ser feliz apenas com o meu sorriso. Mostra-me o timbre da tua voz junto ao meu ouvido para que eu perceba que realmente existes. Mostra-me as linhas dos teus lábios para que os possa desenhar num poema. Mostra-me este fogo de outono que trazemos ao peito...

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