...SoLAce

Os seus olhos permaneciam abertos no escuro. A insónia, alimentada por uma agitação que não conseguia perceber plenamente. O cansaço que sentia pregava-lhe o corpo ao colchão como se pesasse o dobro, e por dentro, a emoção revolvia um tumulto que as noites esquecidas faziam renascer como uma música da adolescência...
A suavidade e o calor dos lençóis afagavam-lhe a pele macia. Uma carícia quente que a deixava mais calma. Uma ternura imaginada que lhe servia de consolo na noite fria.

Ele, sentado na sua própria imaginação, à cabeceira dela, alisava lentamente os fios de cabelo sobre a fronte. A mão deslizava num compasso sonâmbulo tentando que ela o sentisse na distância que os separava. Uma vigília terna que alimentava a felicidade de apenas estar ali, sentindo-a à distância de um hálito apaixonado.
Ela, incapaz de o sentir, permanecia quieta, abrindo as gavetas da inquietude, minuto após minuto, num crescendo de impaciência que se dilatava na noite. 


A rapariga com asas de anjo, coroa na cabeça reflectindo o sol, olha para o horizonte da memória com o verde no olhar emoldurado pelo cabelo loiro e desalinhado. I’m not afraid, diz ela com a voz embargada, I’m not afraid...


Não tenhas medo... 
Não tenhas medo, diz ele saindo do transe em que entrara, um rasgo de sonho que o cansaço causara. Num sobressalto, percebe que a cabeceira já não está ali, os fios de cabelo macios desapareceram das suas mãos. A ponte que os ligava tinha desaparecido.
A raiva cerra-lhe os punhos da ira num impulso súbito. A ansiedade aperta-lhe a garganta num grito mudo. 
Onde estás, pergunta ele sabendo que não existe resposta. Onde estás, pergunta ele vagarosamente recordando o cheiro onde os cabelos dela se deitavam sobre a curva do seu pescoço. Mas a única resposta é dada pelas paredes que se fecham sobre si pintadas de solidão. 
Ninguém percebe o que traz lá dentro... Aquele mundo onde o coração bate em sintonia com a paixão de sentir cada instante, aquele mundo onde cada detalhe importa, onde cada olhar é uma emoção, onde cada sorriso é um chorar de alegria, onde o desejo de amar é um abraço onde os minutos são eternos.
Talvez ninguém perceba, porque na realidade, o cheiro que recorda do seu pescoço não existe, porque nunca o sentiu. E o cabelo suave nas suas mãos, nada mais é do que vontade de sentir.
Será que apenas existe o que existe, ou poderemos abraçar sem abraço, cheirar sem cheiro, gostar sem ver, sentir sem tocar? Poderemos dar o que temos mesmo que ninguém o receba?

Ele, numa carência súbita e monumental, abraça como sua companheira a tristeza que assume agora o papel deixado vazio pela ponte caída sem distância nem matéria, que desapareceu momentos atrás. A almofada que lhe dá colo à cabeça, deixa o vazio do carinho que só as mãos podem dar. Os olhos teimam em permanecer abertos como crianças corajosas enfrentando o medo do escuro. O quarto, no avançado negrume da noite é uma casa em chamas de onde queremos fugir. O coração, esse órgão tão ‘enganador como o amor’ relampejando no centro da tempestade que traz no peito, dói numa dor que não é a sua. Uma dor que não é dor, mas um aperto que apetece arrancar com as mãos nuas.

I’m not afraid... Diz a rapariga com asas de anjo. A crescente emoção no seu rosto depressa ganha vida no risco torto dos lábios e nos olhos que deixam de conseguir segurar a tristeza salgada que lhe escorre na planície da face. Sem ninguém que lhe dê colo, num desamparo estéril, braços sem função, um estorvo que não serve para segurar nem abraçar.

Não tenhas medo... 
Não tenhas medo, diz ele agarrando nas rédeas da respiração e acalmando finalmente o peito. 

Recordando as cores do outono vai descendo devagar à cave onde todos os sonhos começam. Restam-lhe os sonhos. Sim, e é lá que hoje, ela lhe abre a porta, na cave onde todos os sonhos começam.
A porta abre devagar, e sem reconhecer o seu rosto sabe que é ela. Deixei-te a dormir ainda há pouco, diz ele sorrindo numa felicidade repentina. E num gesto lento, sem banda sonora nem constrangimento, tocando numa franja do seu cabelo, tem a certeza que é ela. Ela, sorrindo-lhe a medo responde, não me lembro. Ele, quase à distância de um hálito apaixonado, percebe que não conhece o cheiro que julgava conhecer de cor. Não me lembro, repete ela, mas entra, não fiquemos aqui.

I’m not afraid...


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