JoGo de palAvras

A praça antiga era conhecida pelo café, ou seria talvez o café conhecido pela praça, agora remodelada, calçada nivelada, esferas de ferro no chão limitando a circulação dos automóveis.

A estátua do Pessoa não estava sentada lá fora, tinha partido para Lisboa, mas todos nós sabemos que o espirito dele senta-se em todos os cafés com esplanada onde se fale português.

À hora combinada ele já lá estava, mesa do canto como é da praxe, todos os cafés  carismáticos têm uma mesa do canto, onde os pretensos artistas se sentem mais à vontade, à laia de estudante rebelde que ocupa sempre a última carteira ao fundo da sala.

O abraço é um órgão que se estende para além dos nossos corpos, porque é ele  que nos une. É das melhores coisas que nós temos...

Ela, sentada à mesa, acabada de chegar, lê as palavras dele no caderno de capa preta que o acompanha sempre, e que ele virou para ela mal acabou de escrever.

Trocaram um olhar demorado e ele voltando o caderno novamente para si, de caneta em punho, continua onde tinha parado.

As palavras não conseguem dizer tudo aquilo que sinto. Ou talvez não as saiba articular com eficiência. É que percebe uma coisa, uma imagem vale mil palavras e quando olho para ti vejo diante dos meus olhos mais de mil imagens, portanto faz as contas e poderás ter uma ideia de tudo o que te poderia dizer.

O caderno voltou a rodar, e ela, depois de ler, agarrando na caneta inicia um diálogo silencioso de frases e emoções soltas.

Os teus olhos mergulham dentro dos meus muito devagar e sinto que vês o que sinto. E quando respiras fundo, percebo que mergulhaste por completo e sinto-te lá, num lugar que é nosso. 

À vez, foram rodando o caderno, trocando a caneta de mãos, dizendo o que sentiam, completando o que o outro queria dizer, porque afinal, o que era dito saía da mesma boca, da fonte comum que os alimentava.

Respiras fundo e o brilho nos teus olhos mostra a eterna carência que apenas as pessoas como nós sentem. Passámos fome e tu sabes bem que sim, agora que vemos no espelho, a vida fútil dos outros. As minhas mãos, vazias de tudo excepto de ternura, uma ternura sem principio nem fim, tocam o teu rosto, e choras para dentro para não chorares para fora a fraqueza que não queres mostrar a nu. Toco o teu rosto e a cor dos teus olhos descerra em mim um mar de emoções repentinas e deixo-me cair sem rede, mas logo a seguir flutuo na corrente do teu hálito e sei que não estou só.

Ele sorri sabendo que ela irá gostar da escolha das palavras que acaba de escrever e passa-lhe o testemunho.

E é nesse momento, sem ter palavras faladas capazes de dizer o que quer que seja, que os nossos corpos unidos se encaixam. Não numa extensão de nós como o nosso abraço, mas num complemento, uma coisa que estava em falta e que agora está completa. Um encaixe perfeito, a minha medida é o teu tamanho.

Ela, colocando um ponto final demorado, relendo o que escreveu, sabe que é mesmo aquilo que quer dizer.

Fujamos daqui então, e fustiguemos os olhos dos deuses com a emoção que o mundo sente quando fazemos amor.

Ela, ao ler a frase, sentindo o coração parar num instante, não consegue esconder a emoção aprisionada na garganta, um nó que une o silêncio da voz com o marejar dos olhos que lhe turva a visão. Agarrando na caneta, procura palavras que se deitem no papel da mesma forma que as dele.

Quero-te tão bem... 

O que é isto? Pergunta ela  levantando os olhos do papel e quebrando o silêncio. É uma pergunta retórica que ambos sabem não ter resposta concreta.


Quero-te tão bem... O que é isto que sinto?



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