Tecem nós na ansiedade da voz -
Rasgo centelhas de esperança sem hesitar
Num abandono de cansaço de quem não se importa.
Secam as palavras sem serem ditas, como explosões
Silenciosas de pólen na boca gulosa de um gato,
Que se abandona a mastigar o ar doce do seu hálito.
Rasgo-te a roupa da boca
Desnudando os seios das tuas palavras
E os mamilos das entoações que fazes no timbre da voz
Deixando turvo o pensamento da lua...
Acenam os loucos nas janelas apagadas do internato,
Do outro lado da rua, sem perceberem quem somos,
Loucos como eles, pintando poemas de pedra sem pincéis ou cinzéis,
Sem canetas ou palavras ditas, com o olhar vago da incerteza apenas,
No tormento permanente de não sermos compreendidos -
Medo de afinal nada sermos...
As ondas a bater no escuro das horas tardias
Enchem de sal a engrenagem do relógio de corda,
Rangem os ponteiros sonolentos, nos solavancos
Intermináveis dos segundos,
Nos solavancos intermináveis das palavras que dizemos
Entre o ocaso e a aurora, madrugada fora,
Na metamorfose invertida do nosso contentamento,
De crisálida a lagarta, escoando-se na ampulheta dos astros -
E mastigamos a ansiedade de dizer adeus
Como copos partidos na boca de um sonho.
O sabor a ferro na boca,
Que é como quem diz, sabor a sangue,
Acorda-nos do sonho em que tentamos morder o ferro da fronteira -
Dos jardins do internato, as grades,
Separando-nos da realidade, separando-nos do mundo,
E que num dia normal, sem darmos conta,
Fechámos lá fora.
Alheios a tudo,
Tecem os insectos murmúrios que ninguém ouve,
Abafam-se os pensamentos e tudo volta a ser nada.



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