Jun02d03h00m


- O céu é o mesmo, valha-nos isso... - disse ela. 
- Seria tão bom levar-te... - Respondeu ele como um dia começou. - Eu apenas tentei fazer-te sorrir...

Photo by Martin StrankaNem sempre o mais cómodo é o mais fácil. 
Existem dias em que o coração nos bate no peito de uma maneira que julgamos estar doentes, outros dias bate-nos no peito como se o sol se concentrasse todo  por baixo do externo, cravado cá dentro, numa felicidade capaz de romper tecidos e fronteiras. Noutros dias, o coração estilhaça-se como copos partidos num impulso de raiva deixando-nos sem força nas pernas, exaustos, pisando os vidros debaixo dos pés descalços. Tudo se derrete como se não houvesse amanhã.

Lá fora a lua brilha num tom amarelo e sei que as lágrimas do mundo caiem dos olhos de quem ama. E muitas vezes a dor dá dormência, uma dormência que nos protege da ausência de quem se ama, uma dormência temporária, uma embriaguez que dura uma noite, até de madrugada, uma dormência que mais tarde ou mais cedo se transformará na ressaca que nos deixará de rastos, partidos, rasgados.


Já é tarde demais para que exista alguém do outro lado de um telefone que nos possa ouvir e compreender. Já é tarde de mais como em tantas outras noites passadas. Os telefones do mundo estão desligados e sem voice-mail. Aperta-se uma coisa cá dentro e a ansiedade nasce a ferros, rebentam-se as águas e damos por nós  a assistir ao parto da nossa própria angústia. E o grito emudece e a voz cala-se porque ninguém nos ouve, ninguém nos assiste, ninguém nos conforta, porque já não existe ninguém que nos compreenda os mundos que nos correm à frente dos olhos, à frente do peito que trazemos nesta tempestade de velas de pano rasgadas.

Os mundos que trago na banda sonora da madrugada, deitam-se no cansaço que corre nas veias do tempo. E na correnteza do meu sangue, esses mesmos mundos, esses aglomerados de emoções, desfiam-se em fios de prata subterrâneos onde ninguém os vê. Hoje, a esperança veste-se de cores garridas em vão, no filme a preto e branco onde os sorrisos, são todos eles expressões de tristeza.


Lá fora já não brilha a lua, tudo é breu, ausência de tudo. Porque agora, a esta hora, na madrugada em que a esperança foi assassinada, todos os poemas, todas  as chegadas e todas as despedidas que fizemos, são apenas uma vela acesa de parafina branca no pavio negro da memória.


Comentários