O roXo dos teus Lábios

O roxo dos teus lábios segrega nos meus olhos uma espécie de medo que nasce no centro do peito e que se espalha nos circuitos internos da minha carne.

O roxo dos teus lábios, na indolência da tua quietude, espalha-se dentro de mim como uma corrente de ar como quando duas portas da mesma casa se abrem num dia de vento deitando tudo ao chão. E sinto as entranhas revoltas nessa correnteza e pasmo-me por nada mais conseguir fazer.

O roxo dos teus lábios, magoa-me os lábios, por deixar pendurados nos cantos da minha boca quadros de tristeza em tinta permanente e aguarelas sem cor.

O roxo dos teus lábios, fruto gótico que a árvore do desalento plantou no teu perfil, deixa-me no palato o fel. E desejo instantaneamente a embriaguez em tragos de vinho que me adormeçam e que me façam esquecer o quanto te sinto a falta.

O teu cabelo negro, longo, como sempre o adorei ver, emoldura o roxo dos teus lábios, enquanto que os pincéis do passado retornam a tez morena da tua pele na tela do meu desejo mais profundo. E no jardim onde te deitas, as sombras são agora luz, e florescem agora as sombras em cores de pétalas e pólens, em brilhos de asas, em sons de cristal que lava as mãos e que molha a boca, e o roxo dos teus lábios nada mais são do que amoras doces que a fartura da terra dá.

Acordo no roxo do escuro que me envolve o leito, e é o sabor do fel que recordo ainda, e não o doce dos frutos negros. E estremece-me o coração num sentimento de perda, embrulhado num papel de impotência que a minha respiração tenta rasgar com mãos atabalhoadas. E é ali, no roxo do escuro que me envolve o leito, em plena madrugada, na quietude das horas que ainda faltam para o
raiar o dia, que tudo se acalma em mim, de repente, porque é nos olhos de toupeira do escuro, bem ali, onde o roxo dos teus lábios me sobressaltou o sono, que te oiço afinal, ao meu lado respirar.


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