Sonhar é uMa espéCie dE esTado fEbril

Adormeço no estado febril que a fruta da época me dá. Os headphones cerram-me cá dentro deixando o mundo lá fora - os gritos e as brincadeiras das crianças, os carros, as sirenes do INEM, o ladrar dos cães, o telemóvel a tocar, a campainha da porta, os alertas dos afazeres com dois ou três dias de atraso quando às vezes não é o mesmo número mas em semanas porque as horas dos dias são sempre curtas.

Adormeço no estado febril dos dias chuvosos que teimam em ficar. Sinto o corpo sair de mim, aliás, quem sai sou eu como se me despregasse de mim próprio num movimento lento e subtil, como um lençol de cetim que escorrega para o chão na esquina do colchão num silêncio de sono matinal. E já fora de mim, entre o limbo do sono que adormece parcialmente os sentidos e nos deixa numa espécie de morte, prevalece o subconsciente numa vida própria ao ritmo das suas próprias engrenagens. E nesse estado, relembro coisas como se as tivesse vivido. 
Dizem que isto é sonhar.

Fala comigo... Fala comigo, repito eu, sem no entanto saber com quem falo. Tudo escurece e mudo de lugar. Sobrevôo ruas onde passei na adolescência e sinto na boca o sabor das coisas. Tudo tem cores, até a tristeza. Tudo tem sabor como se os olhos fossem boca. 
Rasgo o negro do passado pela melancolia que um dia nos afogou tantas vezes. Rasgo o negro do futuro por nos aproximar cada vez mais da nossa morte. E rasgo o negro do presente porque sabemos perfeitamente que não precisamos de amanhã para morrer hoje.

Estremeço. Volto a mim e reentro na minha pele como se caísse do vôo. Guardo durante segundos tudo como se ainda lá estivesse. Sei que não estou.

Acordo quando os olhos se abrem e lá fora o passado é hoje, o dia é noite, as cores são todas elas sabores. Mas percebo de repente que no escuro, sem luz, as cores não existem, e o que me fica ao fim e ao cabo, é um sabor a nada.

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