De repente uma fEbre, um Capítulo rasGado de um liVro

Quando vários de mim se emancipam na escuridão da noite, a loucura é a normalidade, e ninguém poderá, descobri eu, perceber o que sinto.

Pelos meus olhos, neste olhar turvo, vejo relutantemente meias verdades através de dioptrias cansadas. O meu olhar turvo, esse, mostra-me apenas que a capacidade de ver, nem sempre nos favorece. 

Paro numa berma escura, à sombra de uma noite calada onde o céu vazio, sem estrelas, apaga a esperança que ainda ardia no fim do pavio quando saí estrada fora para te procurar. De repente, uma ansiedade do tamanho do mundo, e contemplo em silêncio a auto comiseração espontânea e cínica que uma solidão auto infligida pode provocar.

Sinto-lhe a falta, diz-me ele. Não sei do que falas, respondo. Sabes aquela estrada que leva a uma casa lá no alto junto a uma igreja? Sabes?… Sinto-lhe a falta, diz-me ele.
O silêncio é eterno. Sinto-lhe a falta, penso eu, deixando o silêncio permanecer eterno. Sim. Sinto-lhe a falta, digo entre dentes para me fazer acreditar que o que sinto é real ouvindo a minha própria voz. 

Se respondermos em voz alta às nossas perguntas, deixa de ser monólogo para ser diálogo? 

Passam milhares de imagens para lá do pára-brisas, dezenas de rostos projectados no escuro da noite onde nada existe. Se não se vê, não existe, certo? E porque é que cada vez que dizemos isto, no nosso íntimo, sabemos que não é verdade? Será porque de facto acreditamos que mesmo que não se veja, existe? Ou porque apenas nos rendemos às filosofias de meia dúzia de eruditos, meninos ricos que ao longo dos séculos, sem nada que fazer e sem nada para dar valor à vida, teimaram em inventar num croché de pensamentos para justificar a sua própria existência?
Rebuscado, eu sei… Tenham paciência, nunca disse que sabia escrever, ou pensar, ou dizer o que quer que fosse. Sou um filósofo low-cost que a modernidade criou, um estudioso analfabeto, um músico surdo, desafinado, um cronista de blogs que ninguém lê, um atleta que nunca chega a partir, um pai que nunca está, um filho que nunca esteve, um amigo que nunca o foi pela evidência de não existirem amigos. Tenham paciência, vocês, que estão aí ao fundo, no escuro da noite, que não se vêem, que na realidade não existem, porque o que não se vê não existe, certo?

Mas digo-vos, a vocês que não existem porque não estão aí, porque foram à vossa vida, que aquilo que não se vê, existe! Existe esta falta que me faz... porque sinto-lhe a falta. E chegam vagas de ondas de imagens à praia do tablier à minha frente, onde recordo a saudade imensa que me fazes sentir. Sinto-te a falta, mas nada te posso dizer, porque continuando a existir já não existes, porque não te vejo… Mas ainda te sinto, mesmo que não te possa ouvir a voz.


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