Amnésia


Escorre tinta que desaba no papel,
Que se deita, que permanece e persiste,
Num conto em que a vida acaba sem luto,
Longe desse mar negro, sem frutos e cruel.

O luto, meus amigos, não existe...
Existe sim, a saudade,
Que magoa, que permanece e persiste;
Existe sim, a tristeza,
A perda de um abraço, de um sorriso,
Pérola de profunda beleza
Que nos alegra o coração,
Existe sim, a saudade,
Que nos magoa e nos atira ao chão.

A arte, meus amigos, não existe...
O que existe são os poetas, os pintores,
Os músicos e escritores, escultores,
Artistas reveladores, de que a arte não existe,
Porque o que existe és tu,
Poeta dos meus olhos quando choro,
Pintor do meu sorriso,
Do meu corpo efémero, escultor,
Cineasta da minha vida inacabada,
Bobine de filme queimada,
Banda sonora dos meus dias calada,
Memória que fica, mesmo que triste,
Porque a arte, meus amigos, não existe.

O que existe, é aquilo que eu sinto.
E o que eu sinto, és tu.
Tu és a arte, tu és o sentir.
E todos vocês são o sentimento, 
A esfera deste ínfimo momento;
Uma expressão, um rosto, um sorriso,
Uma festa na face que nos aconchega a alma,
Que nos acalma, que se entranha nas entranhas,
Uma emoção que nos anima,
Que nos faz transpor montanhas...

O que eu sinto és tu.
Tu, que és a paz de um silêncio
Sem pressa nem demora;
Tu, que és o calor cá dentro,
Contrapondo o tormento,
Que é o frio da tempestade lá fora.

Tu, meu aconchego profundo na noite escura,
Terapia das minhas ansiedades,
Equilíbrio das minhas efémeras vaidades,
Centelha infinita de ternura, que perdura...

O que eu sinto és tu, e tu, e tu...
Todos aqueles que guardas em ti,
E todos aqueles que guardam parte de quem és.
Porque a arte, meus amigos, não existe,
Mesmo que corram o mundo de lés a lés;
A arte é triste, a arte é vã,
Um prato cheio que não enche,
Uma noite mal dormida num divã,
Um cinzeiro de náusea
Onde jazem sentimentos apagados,
Uma garrafa vazia pela manhã;
Porque a arte meus amigos,
Pertence aos desesperados
Caminhando numa terra chã.

A arte não existe...
É amnésia, é esquecimento.
Queimem livros e quadros,
Rasguem partituras, quebrem esculturas,
Calem-se as vozes e parem-se os passos,
Esqueçam os êxitos e os fracassos,
E desse chão estéril nada brotará.

Sentir,
É semente e sol,
É água e terra.
Fonte de tudo,
Mãe do que somos,
Pai daquilo em que nos tornamos.
Sentir,
É a arte de viver,
É aquilo que nos fica,
Porque sentir é tudo o que afinal nos resta.

A arte não existe, assim,
Apenas nós enquanto formos recordados - 
Depois da minha morte, recordem-se de mim,
E meus amigos, façam disso uma imensa festa…

PM-2015

em memória de

Tânia Pereira Mendes

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