Hoje, rasguei-me pelo picotado

Rasgar pelo picotado
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Rasguei-me pelo picotado da alma e dividi-me no papel que desempenho para todos e no talão que guardo no bolso e que me faz recordar de mim como se fosse uma velha foto de família onde apenas eu estou.

E porque hoje é domingo, porque hoje está calor e porque hoje é apenas mais um dia debaixo do imenso céu azul, retirei o talão do bolso e olhei para mim no espelho do dia pendurado na parede que a brisa eleva ao nosso redor. Uma parede sem paredes, livre, sem compromissos, uma parede que nos deixa ver o céu como ele é, um time-lapse real e infinito sem tecnologias HD.


Retirei o talão do bolso, aquele talão que ainda me sobrou do papel que desempenho para todos, e implementei um sistema de senhas para quem quiser  ir ao guiché onde me sentei a ver o céu.

São os outros, aqueles que realmente contam, que nos dão sentido à vida, que são o nosso porto seguro, mas no fim, na derradeira viagem, estaremos sempre sós. Mas não se iludam, porque quando as luzes se apagam e o dia se desliga no interruptor das horas e a brisa se espalha num arrepio na pele, o medo de estar só não me acompanha, porque estar só é um privilégio de quem tem a vida cheia.

Peço desculpa, vou ter que chamar uma senha. Volto já.

Afinal foi rápido. Daqui a cinco minutos atendo mais alguém. Para já, vou agarrar no talão que trago no bolso, faço de conta que estou muito ocupado e vou ficar aqui, olhos postos céu, neste guiché bucólico à sombra de um limoeiro quase silencioso. Se precisarem de mim, tirem uma senha.


Rasgar pelo picotado
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