O que nos consome não é a morte. O que nos consome é a vida.
A morte é um estado que muitos acreditam ser permanente. Outros acreditam que é temporário. Mas independentemente das crenças de cada um, a morte não nos consome.
A morte pode ser o fim ou uma passagem. A morte, pode ser o fim de tudo para quem entende a vida como princípio e fim da existência de cada um de nós, ou o despertar de algo novo, para quem acredita que a morte não é o fim. Mas o que nos consome a todos, não é a morte. O que nos consome é a vida.
Comecemos pelo fim da vida como faria Woody Allen. Imaginemos que estamos no fim da nossa vida, uma qualquer vida, sejamos homem ou mulher, uma vida longa, uma vida não de apenas uma pessoa, mas de várias, não interessa, imaginem apenas que estamos no fim de uma vida longa.
O que nos consome então? Será a morte? Não, a morte não nos consome, porque a vida é uma benção para quem já está cansado. O que nos consome, é a vida, são as dores da vida, as dores do corpo que teima em não fazer as coisas como fazia antigamente. O que nos consome é não nos recordarmos das coisas como outrora, é esquecermos-nos de quem nos é querido num lapso temporário de nós próprios. A vida é que nos consome, porque vemos as nossas faculdades atiradas ao chão. O que nos consome é estarmos sós e já não podermos partilhar nada com quem já dividimos a vida a meio, não podermos partilhar um simples pôr do sol com quem vivemos tudo, porque esse alguém já não está. É isso que nos consome. E o que nos consome são as dores, os conflitos, as discussões, a dor de perder um pai, uma mãe, um irmão, um filho que foi embora muito antes do seu tempo. E não, não é a morte deles que nos consome, o que nos consome é a saudade, a vida toda que ainda temos para viver sem eles.
O que nos consome é a mesquinhez dos outros, a nossa própria mesquinhez da qual não damos conta na maior parte das vezes, as invejas, as mentiras que prejudicam, que nos pisam, o que nos consome são as lutas, os divórcios, as partilhas, as terras, as casas, os carros, os telemóveis, os centros comerciais repletos de coisas para consumirmos que afinal nos acabam por consumir. Porque não é a morte que nos consome, é a vida, são as profissões, o primeiro emprego, os despedimentos, as rendas, as compras de mercearia, as mensalidades dos colégios, as propinas, o valor de mais uma consulta. O que nos consome são as traições, a infidelidade, os mal entendidos, as palavras que dizemos de forma certa e que são ouvidas de forma errada, as palavras que não são ditas, as palavras que ditas, nada dizem. O que nos consome é não dizermos o que sentimos, é deixar alguém partir sem dizer que amamos, é deixar ficar alguém não dizendo que nos magoa. O que nos consome é amar sem sermos correspondidos, é amar um amor proibido, escondido, é fingir que se ama por medo, e por medo deixarmos de ser quem somos. E é tudo isso que nos consome, que nos gasta.
O que nos consome é o primeiro namoro que correu realmente mal, porque gostávamos realmente. O que nos consome é nunca termos recebido aquele brinquedo no natal ou no aniversário, é não termos tido um carinho na hora certa, um beijo na hora de deitar, a falta que um pai nos fez, uma mãe, ou até ambos porque podemos ser órfãos sem o sermos. O que nos consome é o medo do escuro quando em pequenos os cães ladravam lá fora.
O que nos consome meus amigos, para não nos alongarmos em dramas maiores, é a vida, porque uns mais que outros, todos temos caminhos tortuosos a percorrer, que nos cansam, que nos maçam, que nos preenchem e que também nos consomem, mas na vida meus amigos, o que realmente nos consome ainda mais, é termos pena de nós próprios deixando que o amor que devemos sentir por todos, não chegue sequer à pessoa mais importante da nossa vida: nós.
* Imagem: Death and Life - Gustav Klimt
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