MaPa dE CoNstelações

Alex sentou-se na cadeira branca que se encontrava mais perto da porta. Afastou-a da mesa da cozinha e virando para si o bloco de apontamentos da lista de compras, começou a escrever sem saber ao que ia. Sem saber ao certo o desenrolar daquele novelo que lhe ia no peito e na cabeça.

Espera. Espera. Espera…

A tinta azul tinha um tom fora do normal. Alex olhou para a caneta tentando recordar-se de onde teria vindo, mas foi imediatamente interrompido pelo turbilhão de pensamentos que lhe deambulavam à frente dos olhos como se se materializassem num teatro de fantoches imaginário.
Quase de imediato o nó formou-se na garganta como um espirro da alma, um nó que vem e que se forma aprisionando lágrimas no canto dos olhos, que sem sitio para fugir, irrompem sem cerimonia rosto abaixo deixando-nos nus.
As lágrimas caíam devagar. Alex engoliu em seco empurrando aquele nó de emoção para baixo tentando-o afogar no estômago. mas o aperto no peito empurrava teimosamente para cima todas as emoções.

Como podem eles saber como te amo? Escreveu ele entre as linhas do bloco. 

Como podem eles saber como te amo? 
Como podes saber tu como eu te amo?
Se nunca o disse sem ser com as palavras que vêm no dicionário?
Como podes tu, saber como raio te amo?
Porque tu,
És um mapa das constelações que sinto cá dentro,
És o repertório de todos os meus sentimentos,
Uma pauta de melodias que os ouvidos não ouvem.
Como podes tu saber como eu te amo?
Se nunca te contei todos os sonhos em que te sonhei?
Se nunca te contei os caminhos que percorreste comigo sem saberes?
Como podes saber e sentir a forma com te amo,
Se a vida que vivemos hoje,
É pequena demais para condensar a nossa existência?
Diz-me como podes saber a forma como te amo?
Não podes porque a voz dos meus olhos,
É canto mudo na distância que nos separa - 
É muda a voz dos meus olhos quanto não os vês.
Eles não te amam como eu te amo…
Eles não te amam como eu te amo…
Mas como podes tu saber como eu te amo,
Se nunca o disse de forma a que realmente percebas?

Alex largou a caneta e arrancou a folha do bloco. Dobrou-a ao meio e rasgou-a de imediato largando-a no saco de lixo aberto no canto da cozinha. Olhou para o bloco em cima da mesa com as palavras vincadas e sem cor, e com um sentimento de vazio repentino, uma solidão e desconsolo que mora onde o frio do inverno mora, saiu porta fora.

Se ao menos pudesse dormir esta noite, pensou. Se ao menos te pudesse dizer como te amo sem ser por palavras.


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