Não acredito no amor, disse ela convicta das suas palavras. Ele, não absolutamente surpreso, sorriu, sabendo que tudo o que dissesse iria ser veemente contraposto. Limitou-se a cruzar o seu olhar com o dela por breves momentos ficando sentado no mesmo sitio, uma escada em cimento de quatro degraus que dava para uma porta trancada.
Ela, parecendo distante nos pensamentos e alheia ao que acontecia ao seu redor, continuou sentada sobre o capot de um carro branco parcialmente desmantelado com faixas de um vermelho desbotado a roçar o rosa. Os seus cabelos pretos e longos, caiam-lhe naturalmente sobre os ombros como se tivessem sido penteados pelo vento. Mas era a forma dos seus lábios que o cativavam, não pelo desejo , mas pelo delineado sensual que terminava num esboço de sorriso sempre que dizia alguma coisa. Ele, na sua sobriedade e calma que o destacavam dos outros, lia-lhe as expressões sem indiciar sequer que olhava, quanto mais ler o que quer que fosse.
Havia alguma coisa que os unia, uma espécie de rixa entre rivais, como se duas cargas positivas se repelissem. E era nessa espécie de conflito que se uniam no íntimo dos seus mundos. Cada um por si, numa das mil camadas do subconsciente, sem perceberem esse ínfima faísca que luzia sempre que os olhares se cruzavam sem nenhum demonstrar fosse o que fosse.
Ele bebendo um trago do copo que tinha na mão, colocou-o no degrau mais alto e encostou a cabeça na parede fechando os olhos.
Quero mais, disse ela. Já passei por tanto que não me convenço facilmente. E quero mais… Sei que tenho que me libertar de muita coisa, de muito conceito errado… Mas quero mais, sabes?
Pela primeira vez ouviu-a falar assim. Liberta de rodeios, liberta de defesas e muralhas. Era um desabafo que não pode conter dentro de si. Os olhos falavam mais do que as palavras, e ele deixou-a falar como se não estivesse ali.
Queria conduzir até não poder mais, sabes? Agarrar no carro e conduzir até encontrar uma praia vazia e ficar ali num pôr do sol que durasse uma noite inteira.
Conheces aquela música, ‘just ride’? Era isso que me apetecia fazer…
Ele acenou a cabeça com um sorriso sem quebrar o silêncio que se seguiu durante largos minutos.
Queria amar, disse ela olhando para o infinito da paisagem lá fora.
Ele sorriu interiormente porque tinha a certeza que aquele olhar profundo que conseguia ver nos olhos dela quando ninguém reparava, tinha muito mais do aquela capa superficial e fria.
Finalmente o sol entrou janela dentro naquela tonalidade poente e invadiu os poros da pele de ambos. Ele levantou-se e sentou-se de forma a poder ver o sol bater-lhe nos olhos. Ela, que olhava para o infinito lá longe, desviou o olhar devagar e focou-lhe o rosto. Por momentos despiram as expressões duras e distantes que os outros conhecem abrindo as janelas da alma. Ele olhou-lhe na profundidade dos olhos sem ligar importância ao verde do olhar e viu o que ela deixou ver. Um mundo inteiro, um mar de emoções, carência, desejo, uma força ganha à força, uma complexidade igual à dele. Numa fracção de segundo todas as emoções da paixão percorreram-lhe o sangue, uma intravenosa de emoções que o deixaram embriagado. Uma embriaguez volátil como o ar que respiravam. E foi esse ar, respirado por ambos ali tão perto, que lhes uniu os lábios num primeiro beijo lento, bem mais longo que o momento que antecede qualquer primeiro beijo, porque é esse momento que antecede o primeiro beijo, que condensa toda a emoção que se recorda para o resto da vida.
Ela sentou-se no seu colo e consumiram o tempo como se fosse eterno. Gastaram cada segundo deambulando em cada linha do rosto, em cada gesto, em cada curva, em cada cheiro.
O sol posto, deixava aquele romance impensável à mercê da penumbra que os envolvia. E foi nessa penumbra que ambos sentiram o calor um do outro. Um calor que a penetrou profundamente deixando cair por terra receios e lágrimas de libertação, emoções de êxtase caídas entre almofadas e roupa.
Foi nessa penumbra que os olhos dele se extasiaram com os olhos dela, com as suas mãos no seu corpo, com a sua boca na sua, porque de repente o tempo uniu o passado e o presente como se fossem um só, e ambos, olhos nos olhos sentiram aquele nó na garganta, uma rodilha de sentimentos voando nas costas de um colibri, dois mundos inteiros num equilíbrio perfeito, trapezistas da vida arriscando tudo sem rede numa entrega plena.
Ouviu a voz dela ao longe como num sonho e sentiu debaixo de si um dos degraus em cimento. Abriu os olhos e viu-a sentada no mesmo sitio. Os olhos cruzaram-se e ela esboçou um sorriso de desdém e gozo como se perguntasse, adormeceste aí? Ele esvaziou o copo que deixara no degrau mais alto, levantou-se e acendendo um cigarro dirigiu-se ao carro desmantelado sem pressa sob o olhares curiosos e segredou-lhe ao ouvido, conheces aquela música ‘just ride’ ?


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