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A chuva caía copiosamente lá fora num papel químico de calmaria em que cada segundo era igual ao anterior. A luz era fraca como se estivesse prestes a anoitecer apesar de ser meio da tarde.
A ampla janela do snack-bar iluminava toda a sala. A sala, sobre o comprido, terminava numa porta de acesso às casas de banho, onde nessa parede, um relógio preto com a palavra Dublin inscrita no fundo, indicava vinte minutos passados das três. O balcão percorria quase toda a extensão da sala até à janela ampla que ocupava toda a parede que dava para a rua, em conjunto com a porta de entrada, também ela em vidro, com com um puxador ao alto num metal cromado e baço. Pendurado no meio da porta, uma placa de aberto e fechado pendente de uma ventosa. O lado aberto para fora.
Do lado de dentro do balcão, uma estante preenchia a parede de alto a baixo com garrafas, copos de vários estilos, placas de viagens, quadros de ardósia preta escritas a giz com dizeres vários e ementas. Ao fundo do balcão, na parede do fundo, uma porta de acesso à pequena cozinha do snack-bar de onde uma luz branca e crua surgia em contraste com os pequenos candeeiros de luz mortiça espalhados pela sala. As paredes de um azul muito escuro e aveludado, tinham,  espalhados de forma quase aleatória, quadros com reclames old-school de cervejas e fotografias a preto e branco. As mesas e cadeiras de uma madeira rústica e maciça, tinham aquela tonalidade de mel envelhecido e estavam alinhadas paralelamente às paredes à exceção de quatro mesas na perpendicular no recanto onde a sala alargava junto à parede do fundo e onde por vezes a música ao vivo acontecia. 

Atrás do balcão, um homem de meia idade limpava copos com um pano branco sob os pequenos focos que iluminavam a torneira de cerveja à pressão. Na parede do fundo, sozinho numa mesa, virado para a grande janela lá ao fundo, um homem de cabeça rapada, braços cruzados debruçado sobre a mesa, levantou a mão fazendo sinal ao barman, que o copo largo à sua frente com um desenho de uma arpa inscrito a branco se encontrava vazio. O barman, desviando os olhos do copo que acabava de inspecionar contra o foco de luz mesmo por cima de si, acenou lentamente com a cabeça colocando o pano branco sobre o ombro num movimento de chicote silencioso.

Apenas mais uma pessoa se encontrava na sala. Um homem na casa dos trinta, também ele virado para a rua sensivelmente a meio da sala. À sua frente, um copo de whisky quase vazio. O olhar distante como se visse na chuva que caía lá fora, mais do que aquilo que havia para ver.

O barman saiu de trás do balcão num passo vagaroso, copo de cerveja preta numa mão, espuma com a altura de um polegar, uma espuma amarelada e espessa ecoando o sabor intenso que guardava por baixo de si. Na outra mão, uma base de copo seca para repor.
O homem ao meio da sala, vendo movimento na sua visão periférica e saindo imediatamente do seu estado de abstração como se os olhos voltassem a ganhar vida, levantou o copo agora vazio na direcção do barman que acenou afirmativamente dando a indicação que ia apenas servir aquele copo na mesa ao fundo.

O copo de whisky foi trocado quase sem ter dado por isso. Saiu novamente do estado de abstracção e olhou o barman nos olhos voltando a olhar a rua lá fora sem sequer agradecer. A chuva continuava a cair de forma constante. O barulho dos pneus sobre o alcatrão molhado fazia aquele som típico de inverno que nos faz aconchegar a nuca na gola do casaco.
Olhou para dentro do copo, e no fundo do liquido dourado, um nó da madeira no tampo da mesa por baixo do vidro grosso. Levou o copo à boca e num gole lento saboreou o álcool que lhe deixava dormente o sabor de tudo o resto. Pousou o copo sobre o mesmo nó da madeira e ouviu a porta abrir num guincho baixo de dobradiça. O ruído dos pneus no alcatrão molhado ficou mais próximo e a chuva parecia de repente cair mesmo ali.
Viu à sua frente, acabada de entrar, uma mulher de estatura média cujo rosto oculto pela contra luz lhe atiçou a curiosidade. O vulto caminhou lentamente na sua direcção e a pouco e pouco foi percebendo o que trazia vestido. Por baixo do casaco cinzento de botões grandes e alinhados dois a dois que ela desapertou tão lentamente como os seus passos, um vestido azul apareceu por baixo como o raiar de um novo dia. Um vestido a três quartos de um azul profundo, elegante como a curva da perna que terminava num sapato fechado da mesma cor. A luz vinda dos focos por cima do balcão aqueciam a tonalidade da pele tão suave ao olhar como seria de certeza suave ao toque das mãos.
Aproximou-se e parou exactamente à sua frente do outro lado da mesa. As mãos pousaram em cima das costas da cadeira como que aguardando o convite para se sentar. As unhas cuidadas, de um vermelho escuro, combinavam com os seus lábios. A luz do candeeiro na parede, apesar de mortiça, revelava já o seu rosto como que saído de um filme. Os olhos pintados de forma sóbria, eyeliner perfeito realçando a profundidade do olhar. A boca de lábios mais grossos do que finos, esboçou um sorriso também ele sóbrio mas apaixonante como um encantador de serpentes.
Ele fez-lhe sinal para que se sentasse. Ela, puxou a cadeira, despiu o casaco que cuidadosamente dobrou ao meio e colocou sobre a cadeira ao lado. Sentou-se chegando a cadeira para a frente. Colocou os cotovelos sobre a mesa, entrelaçou os dedos onde apoiou o queixo. Um anel fino no anelar da mão esquerda, uma espécie de solitário com uma pequena pedra azul clara. O vestido de mangas compridas mostrava os pulsos nus. O devote em vê, descaiu quando se inclinou para a frente fazendo dançar o pequeno colar que trazia.
Olá, disse ela. Um olá rouco que só ele ouviu.

O barman continuava na sua rotina como numa espécie de meditação activa. Limpava agora copos em forma de balão, que no fim pendurava pelo pé em suportes próprios atrás de si.
Encontrava-se a meio do balcão, quase em frente ao cliente do whisky que ia observando de perfil a falar baixinho gesticulando a mão esquerda enquanto a direita abraçava o copo sobre a mesa com medo que fugisse. Falava de tal forma baixo que era impossível perceber o que dizia. Falava com o sobrolho carregado mas esboçando ao mesmo tempo um sorriso enigmático.
Já os vi piores, pensou para si próprio tão calmamente por dentro como aparentava por fora.
Nisto, o homem levantou-se e dirigiu-se para a porta da rua de rosto neutro e olhar vazio. O barman franziu o sobrolho em forma de pergunta silenciosa vendo que ele deixava o casaco para trás nas costas da cadeira. De certo não se iria embora sem pagar. Abriu a porta da rua e saiu lá para fora sem se preocupar com a chuva que caía, dirigindo-se ao limite do passeio olhando de onde vinha o trânsito. Saltou para o alcatrão e correu até meio da avenida parando na faixa central virando-se para os carros que se aproximavam. Os pneus sobre o alcatrão molhado passavam à esquerda e à direita. Ouviram-se buzinas, ouviu-se um grito. Um autocarro na faixa central incapaz de contornar o obstáculo que lhe saltou para a frente, travou num arrastar de pânico. O condutor, numa expressão involuntária de aflição agarrou o volante como que querendo puxar para si todo o autocarro. A frente do autocarro, essa, embateu contra o homem parado na faixa central qual estátua que encarava olhos nos olhos o seu carrasco que o esmagou violentamente contra o chão fazendo-o desaparecer debaixo de si num estrondo seco.

O barman, olhando para a rua, viu desaparecer a frente do autocarro para além da janela ampla do snack-bar. O autocarro parou finalmente deixando apenas a traseira à vista. Fez-se um silêncio profundo como se até a própria chuva tivesse parado de cair. Os olhos arregalaram-se e pararam de piscar durante dois segundos incrédulos ao que tinham presenciado. Olhou para trás para o outro cliente lá ao fundo, que entretanto já se tinha levantado e que caminhava agora na sua direcção. Ambos arregalaram os olhos numa expressão silenciosa de espanto e olharam em simultâneo para a mesa vazia, onde o casaco nas costas da cadeira apenas fazia companhia a um copo de whisky vazio.


Original baseado na ideia cinematográfica de João C.

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