Quadro de técnica mista | 2015
Fogem os teus olhos pelo ar em riscos brancos e imaginários evitando a colisão frontal com os meus, aqueles meus olhos que conheces de noites proibidas.
Foges do outro lado da sala fazendo os outros acreditar que te sou indiferente. E eu, deste lado da sala sigo-te na lança pontiaguda do meu olhar que te toca em arrepios de metal que tentas esconder.
Mando sair toda a gente da sala em pensamento. Mas continuamos ridiculamente acompanhados por aqueles que nunca irão perceber a corrente sanguínea dos nossos corpos juntos.
Brincas com a pedra de gelo dentro do copo. Um copo alto cheio de um cocktail de tédio que te deixa terrivelmente sexy - só eu sei do que és capaz quando te é imperioso rasgar a rotina e a normalidade dos outros.
Sirvo-me no bar de mais um veneno. Quando me volto não estás. Foda-se… Penso. Dirijo-me à varanda como se subitamente acreditasse que poderias voar.
Sim, confesso, mas apenas no silêncio do meu pensamento o quanto te quero. Agora. E não te vendo ali faz-me sentir uma ansiedade que se enrola nos estômago e me faz cerrar os maxilares.
Corro o resto da casa tentando parecer casual, e da porta aberta para o hall do elevador vejo de relance o teu vestido entrar no elevador e desaparecer. Eras tu. Tenho a certeza.
Desço as escadas a correr atropelando umas instagramers pousando em selfies de inicio de festa. Nem olho para trás. Desço os lanços de escada como um teenager em fuga tentando bater o record do elevador.
Quando a porta abre vejo os teus olhos de espanto que finalmente batem nos meus. Saiem todos ignorando a minha respiração ofegante e o micro gesto de cabeça que os meus olhos completam e que apenas tu entendes. Ficas para trás, puxo-te por uma porta até à primeira arrecadação aberta - que sorte esta estar aberta, pensei eu.
Resistes com o olhar a entrar arregalando os olhos, mas o teu corpo segue a tua mão agarrada à minha que te puxa atrás de mim. Fecho a porta atrás de nós e permanecemos no escuro alguns segundos tentando perceber se estamos sós, e no silêncio que se segue, os nossos lábios finalmente contrariam tudo o que não deveríamos fazer e tudo aquilo que evitavas.
A tua boca na minha cria orgias de línguas contorcionistas como se beijássemos a alma do outro num desespero de morte e saudade.
Na pressa de te ter tudo passa a correr e na pressa de me quereres em ti tudo parece um desepero de ansiedade. Mas depois de alguns minutos somos novamente nós e esquecemos o mundo, e a velocidade de tudo é a nossa própria velocidade. Aquela velocidade em que tudo acontece no tempo certo.
Sinto-te a pele na ponta dos dedos, trespasso-te as roupas com a gentileza que mereces e sinto o arrepio que as minhas mãos te provocam quando te percorro as costas desde a cintura ao pescoço.
Abres-me a camisa e beijas-me os ombros e cheiras-me como quem morre de saudades enquanto mergulho o nariz no teu cabelo sentindo o cheiro de searas ao sol, braços abertos num entardecer de verão. Cheiras sempre tão bem, mesmo quando cheiras apenas a ti.
Tocas-me no peito com as tuas mãos macias sentindo cada curva até à minha cintura. Mergulhas dentro das minhas calças uma das mãos passando a ter a certeza do quanto de desejo. A tua respiração acelera, o que faz acelerar a minha. Sinto o quanto me desejas quando me puxas para ti. Levanto-te a parte de trás do vestido tocando-te na lingerie rendada e quando a minha mão atravessa a fronteira para o principado da tua pele, sinto que nada mais macio existe no mundo.
Arqueias as costas tentando guiar a minha mão para entre as tuas pernas. Não o deverias ter feito. Viro-te contra a parede e penetro-te por trás enquanto tentas alcançar a minha boca com a tua. Abres a parte da frente do vestido e eu abro caminho na vontade de te fazer vir para mim.
Arqueias as costas tentando guiar a minha mão para entre as tuas pernas. Não o deverias ter feito. Viro-te contra a parede e penetro-te por trás enquanto tentas alcançar a minha boca com a tua. Abres a parte da frente do vestido e eu abro caminho na vontade de te fazer vir para mim.
Ainda no escuro, abraçados e ofegantes, enquanto beijo devagar aquela pequena cavidade na base do teu pescoço por baixo do queixo onde uma gota de suor ternamente se acomodou, dizes-me ao ouvido agarrando-me carinhosamente na nuca, ‘todas as noites… esvaziava o meu coração’… E eu, completando as reticências que deixaste no escuro, ao teu ouvido disse, eu sei… ‘pela manhã, volta a estar novamente cheio’.


Comentários