aS LÂminas dO amOr


Todas as fotos são da autoria de Martin Stranka
All Photos by Martin Stranka


Parte 1

Nas noites em que segregas a tua depressão através da ansiedade de tudo o que queres fazer mas não fazes, surge uma dor imensa que se instala acima do externo e que não é bem dor mas uma espécie de vontade de respirar fundo mas que nem todos os suspiros do mundo resolvem.

Nas noites em que tocam os instrumentos que nem o nome sabes de uma melodia que te transporta para o deserto, sentes o olhar negro de uma ninfa que te deixa o sangue espesso como se o tempo de outras vidas te abrandasse o corpo. Uma ninfa de lábios desenhados em papel branco de escrita. Uma tez morena que te embriaga noites a fio no desespero de não ter, no desespero de ser tarde de mais. O desespero de uma vida inteira condensado numa única noite.

Fechas os olhos e tentas pensar noutra coisa. Mudas a música da banda sonora dessas noites e na superfície da melodia tudo está bem, mas rapidamente deixas de boiar nesse conforto de melodias banais e outras surgem que te agarram do fundo escuro rebocando-te por um pé para as profundezas de onde tentas fugir.




Parte 2

Onde começou tudo isto? Onde começou esta espiral? Onde me apaixonei por ti? Em que noite é que isso aconteceu? A que horas assinou o meu coração tal contracto e que me fez ficar refém do teu amor?
Em que dia aconteceu tudo isto que carregamos? Toda esta bagagem que muitas vezes já não suportamos carregar? A que horas do dia terei para mim minutos de silêncio sem os outros me rasgarem por um pedaço de atenção? Quando é que deixei que todas estas amarras me tornassem prisioneiro de mim próprio?

Faço perguntas retóricas às quais sei responder. E respondendo num desabafo, sei que nada resolverá e que nem apenas um nó se irá desfazer. Mas continuo. Abro a boca e falo comigo no silêncio, murmúrios abafados entre lábios como fazem os velhos ensaiando diálogos.
Falo comigo próprio e arrisco dizer as verdades que nunca diria à luz do dia e assumo-as agora sabendo que nada mudará amanhã.



Parte   3

Sei que morrerei aqui, no fundo deste mar, enquanto os pianos do mundo tocam melodias tristes dias a fio. Melodias de chuva incansável mesmo que seja verão e que o sol brilhe. Melodias tristes de pianos deixados em casas vazias. Nas casas vazias que deixámos para trás - todas as casas que deixamos para trás deixam ficar um piano com as saudades e tristezas que lá vivemos.
Sei que morrerei aqui, sem sentido aparente, sem ter feito tudo o que gostaria de ter feito, sem ter vivido todas as vidas que teria a capacidade de ter vivido mas que humanamente é impossível.
Aqui tento aprisionar o coração para que não cumpra o contracto que assinou pelo teu amor. Aqui hipoteco esse amor na trivialidade dos dias deixando acumular juros  na depressão da rotina.





Parte   4

A minha ninfa de tez morena sorri ao longe como num sonho e tento alcançar em vão as suas mãos com as minhas. Uma ansiedade igual àquela que sentimos quando sonhamos que estamos a cair e que por momentos julgamos que não vamos sobreviver.
O vento é forte e não consigo fazer com que me oiça. Continua a sorrir para mim como se não visse o desespero que trago no rosto. Quero dizer-lhe que já vou, mas que a areia me aprisiona os pés. Tenho areia movediça dentro do peito e o vento abafa-me a voz. Grito com toda a força do mundo mas nada consigo se não acordar sobressaltado no escuro. Questiono-me se alguém ouviu o meu grito, ou se como no sonho, ninguém realmente consegue ouvir a minha voz.





Parte 5

Tento libertar-me deste nó que me consome mas não sai. Abro as janelas do carro para sentir o ar frio da noite. Olho com nostalgia as luzes laranja dos candeeiros que há tanto me acompanham. Passam por mim como tantas vezes o fizeram e apercebo-me agora que nunca saímos daqui, que permanecemos sempre no mesmo sitio, todos estes anos. Estamos presos a esta realidade que é sempre a mesma e já não sei se os candeeiros passam por mim lá fora, ou se dentro de mim moram, como anjos da guarda iluminando as minhas noites mais escuras.

Volto a casa e tomo um banho quente. A água ajuda a lavar a alma e acalma. Mas nada remove a solidão profunda.
Ouves todos os desabafos, todas as conversas, todas as opiniões e experiências que os outros fazem questão de partilhar contigo, mas dentro de ti, existe um borbulhar silencioso, uma profunda solidão que habita em ti mesmo quando sorris e que a montra do teu rosto não deixa que os outros vejam. Na realidade não ris nem choras. A tua expressão é única e imutável. É um permanente estar farto de tudo que vais mascarando com as feições de cortesia que ofereces aos outros.
Faço um chá noite dentro apreciando o cansaço que a madrugada me oferece. O silêncio lá fora é rasgado por um carro ao longe. Provavelmente, alguém de volta a casa para um banho quente descobrindo que a profunda solidão não se consegue lavar.




Parte   6

Dá-me uma razão para te amar. Dá-me só uma. Eu conheço-as a todas e no entanto não sei dizer por palavras uma única delas. Não consigo explicar porque razão sofro quando te sinto a falta. Dá-me uma razão apenas que justifique todas as noites que sonhei contigo, todas as palavras que escrevi por tua causa, todas as noites em claro longe de ti, todas as noites em claro contigo ao lado como se o resto do mundo dormisse na profundidade de uma noite universal.
Explica-me como é que o amor, esse íman poderoso se deixa envolver por lâminas que mais tarde ou mais cedo nos corta por dentro aquilo que de mais precioso temos, nos rasga aquele que somos e que apenas damos a quem amamos.
Como é que o coração, esse orgão que associamos ao amor e ao que de mais intimo temos, se deixa enganar por esse íman abstrato e o deixa entrar até ser tarde de mais.
Amamos hoje, sofremos amanhã, porque temos uma despedida pela frente mesmo que voltemos no final da semana. Amámos ontem, sofremos hoje, porque um de nós fugiu sem uma palavra. Amaremos amanhã, e iremos sofrer não sabemos quando porque a morte ou a desilusão ou a doença ou a rotina ou a puta que a pariu se encarrega de estragar tudo.

Amamos e não nos amamos a nós próprios quando esse amor deveria ser o primeiro amor da nossa vida.

Acumula assim, o coração, as lâminas que os bisturis do tempo vão deixando pelo caminho, essas armadilhas sensacionais de tortura.





Parte   7

Coloco aquela música a tocar. Daquele vinil da adolescência. Uma sensação de conforto. Uma lembrança nostálgica de uma tarde em casa de amigos, com amigos que apenas colegas seriam, mas que a idade empolava tornando-os os melhores amigos de sempre durante um dia.
A música essa, ficou para sempre e continua a tocar todas as tardes numa dimensão paralela, na mesma casa, à mesma hora, onde a ninfa de tez morena, lábios desenhados, olhos negros e cabelo preto em desalinho, voltou a ser adolescente, sorrindo sempre, mascando de forma sensual uma pastilha elástica de mentol.




Parte   8

E da profundidade escura, volta a espiral inebriante que te tira a força aos braços induzindo-te um sono tão forte que te obriga a fechar os olhos por um segundo. Um segundo que se transforma em dois, um momento em que ainda consegues pensar que estás acordado prestes a fechar os olhos, mas não, na realidade já ultrapassaste a linha para o lado de lá. Um momento em que de olhos fechados há três segundos, o tempo deixa de poder ser contado por ti porque já perdeste a consciência nessa fracção de tempo, E de repente, não sabendo ao certo quanto tempo passou, acordas num solavanco porque o carro começou a sair da estrada  ou porque o corpo num espasmo involuntário te mostra o quão cansado estás.
Endireitas o volante assustado abrindo os olhos, pensando que foi por pouco não fosse o buraco na berma da estrada que te lixou o pneu e empenou a jante, mas que te salvou a vida.
Desta vez não foi o buraco na estrada que me salvou a vida, foi apenas um espasmo que me deixa a pensar que se tivéssemos morrido de todas as vezes que a morte ameaçou, não teríamos de lá até agora, sofrido ou ter feito sofrer em nome desse sentimento a que vulgarmente chamamos amor, um nome simplório e que em nada faz justiça à sua complexidade. O amor, deveria ter nome de príncipe, com dez nomes e quinze apelidos, e mesmo assim seria pouco.




Parte   9

Lá diz a música que o amor é mais forte que a morte, e das profundezas da memória, uma cascata de melodias avassalam-me o peito deixando-o numa lástima de nostalgia e que nos escuro me deixa os olhos marejados de mar, aquele mesmo mar em frente ao qual te abracei, dezenas de vezes, ninfa, escultura branca cujos olhos verdes refletem o mar que te banha os pés na espuma dos dias.
És ninfa de mil rostos, Ninfa de tez clara, alva, verdes olhos, cor de mel e morena ao sol. É o teu ADN um mistério de mil mutações. És tudo o que me preenche e tudo o que me magoa, és vontade de ter e de fugir, és morangos dados à boca madrugada fora, poesia de livros que me dás a conhecer. És sombra e angústia, força e consolo. És de mil partes do mundo, é o teu perfume mil odores de flores, cheiros de especiarias, maresias, óleos sagrados.
És  Shiva que me inspira a criar, que transforma o pior de mim no melhor que consigo ser, que me abraça com todos os teus braços consolando o cansaço dos dias. És Kali, um demónio que me atormenta…






Parte   10

Dias depois, após doença breve, febres altíssimas, como se de uma noite sobressaltada por sonhos se tratasse, estaciono o carro frente ao mar, azul. Muitos quilómetros de solidão depois, um mar muito azul num fim de tarde em que o teu sorriso chegou até mim, um sorriso de luto, um luto de anos, onde o coração, repleto de lâminas ainda consegue sorrir quando lhe sorrimos de volta. E frente a esse mar azul tudo parou. A vida era outra, tudo o resto deixou de existir à força de não nos lembrarmos das outras vidas que deixámos ir caindo nos quilómetros do alcatrão.
Dias depois, após febres altíssimas, provei a mim próprio que é humanamente possível viver muitas vidas numa só, hipotecando apenas algum tempo, sofrimento, desgosto, lágrimas, tristeza, angústia, desespero, sentimento de perda… Provei que é possível a custo de uma bagagem que ninguém no seu perfeito juízo deseja carregar.





Parte   11

A solidão não nos é dada, a solidão é ganha na conspiração do destino, lá diz a música. A solidão, é um bem precioso que devemos guardar, uma gravidade, um magnetismo que nos agrega e não nos deixa dispersar. Muitos não o percebem porque têm um mundo tão pequeno lá dentro que apenas conseguem viver com o mundo dos outros. Outros existem, no entanto, cujo mundo interior é tão vasto, que a solidão que permite explorar quem somos, sozinhos, noite dentro ou dia fora frente ao mar, é a mesma solidão que nos faz sentir perdidos dentro de nós mesmo à superfície da pele, uma solidão tão densa e profunda da qual muitos não retornam, vivendo o resto dos dias numa sala escura dentro de si, negrume de alvenaria sem portas nem janelas, até que derradeiramente encontrem num estouro de arma ou numa ponte alta sobre um rio, a solução final.
Ficam os outros, a quem eles tocaram, parte da sua bagagem agora liberta, amarras soltas, de coração cortado pelos gumes cirúrgicos que a morte provoca.
A solidão essa, não termina. Apenas se aloja noutro alguém.





Parte   12

De coração e alma nos entregamos às tardes nostálgicas de domingo. Aquelas tardes soalheiras que nos fazem sentir deslocados da realidade, porque as nuvens carregadas de saudade, uma saudade inexplicável, desaba num aguaceiro de recordações enquanto passam os autocarros sonâmbulos, numa preguiça de feriado, em direcção à periferia da cidade.
Saudades de quem perdemos, saudades de quem amámos, saudades do que fizemos, do que deveríamos ter feito e que em sonhos sonhámos. Saudades de uma música que nos assalta num repente, saudades de não termos onde estar, saudades de quando a rebeldia, era o alimento que nos fazia sentir vivos.
De coração e alma nos entregamos a escrever palavras que ninguém irá ler. Palavras simples, em estruturas complexas que a maioria não tem paciência ou a capacidade de dissecar. Dá muito trabalho e é domingo. Faz-se a autópsia amanhã. Ou uma segunda-feira qualquer.






Parte   13

Vale uma atitude mil palavras, diz o povo, mas é nas palavras que me encontro para poder encontrar todos os outros. É nas palavras que te encontro, é nas palavras que vejo todas as personagens que és no palco da tua vida, é nas palavras que te digo o orgulho que sinto, é nas palavras que expresso dar-te a mão quando nem juntos passeamos.
Arranco rumo ao sul, ignorando o norte. E nas margens do rio vai-se deitando a ondulação em movimentos sensuais e obscenos que recordo do ritmo do teu corpo.
Arranquei de manhã e perdi-me. Deambulei a tarde toda em busca do norte, quero dizer, do sul, e ao cair da noite, sem te encontrar, retornei àquele quarto onde as sombras se deitam ao meu lado de lingerie preta e onde as palavras se deitam no papel em vestidos de princesa expressando mil intenções sem nada concretizarem.
Vale um atitude mil palavras. E eu, nada valho, porque apenas escrevo.

Podem as lâminas do amor ser também, um objecto rombo como esta caneta que empunho com o silêncio da minha voz.




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