Sinto a solidão no ar como quem agarra uma cortina espessa de vento, uma espécie de abraço impossível que nos repele.
Sinto o vazio dos dias. Todos os dias. Uma tristeza que muitos poderão saber o que é, mas que ninguém realmente conhece, porque ninguém está para além de si mesmo, e a solidão, essa, apenas existe quando ninguém a vê escondendo-se atrás de nós, atrás de sorrisos dissimulados que aprendemos a fingir.
São as funções básicas do meu corpo, o mecanismo que me mantém vivo, e é o meu amor próprio, o tubo de ensaio para que te ame desta forma. É o meu pensamento, a lógica dos dias, o porquê de ser como sou, o encanto que o pavão trás nas penas e que habilmente utiliza em modo de conquista.
Mas quando a noite chega, ou mesmo o dia, nos minutos e horas em que o silêncio descobre o lençol que cobre o vazio, aquele vazio de não estares, aí sim, sinto a solidão no ar como quem agarra uma cortina espessa de ar, uma espécie de abraço enganador.
Existem dias assim, em que a solidão é mais forte e em que nenhuma das distrações da vida ou intelecto treinado consegue evitar. É uma coisa que se sente sem palavras, um formigueiro lento que nos cerca o ânimo, uma nevralgia omnipresente, um vazio imenso, como se o vazio, esse, ocupasse muito mais espaço dentro de nós.
Sinto a tua falta. Sem ti, e a esta hora, qualquer hora, não importa, desde que sinta a tua falta, a nostalgia torna-se num mar sem pé onde mal sei nadar. Sem ti, é como se as paredes fossem de ar e o piso de papel e num repente ficasse a cair num sonho em que acordamos num solavanco.
Sem ti, fico sem chão, porque é em ti, o único sitio onde quero estar, o único sitio onde todas as músicas passaram a fazer sentido.



Comentários