Acordo de madrugada sem roupa e sem frio numa planície escura onde as luzes serpenteiam no corpo semi iluminado da cobra de alcatrão que se desvanece no horizonte muitos metros largos à frente.
Ao sabor dos camiões que circulam espaçosamente no tempo, as putas acordadas vagueiam pelas bermas fumando um cigarro que lhes ilumina o rosto. Excepto uma, que permanece sentada numa cadeira de praia, desfasada no espaço mas não na sua função, a cadeira, não a puta, riscas azuis e cor de rosa desbotadas nas costas e no assento, pés de alumínio semi enterrados em terra em vez de areia; um casaco pelos joelhos, a puta, não a cadeira.
Um carro branco parado mais à frente, sem vida aparente ali está, deixando a pairar no ar o que terá acontecido numa curiosidade de porteira… Uma avaria cujo reboque nunca chegou, um caçador que se embrenhou no mato horas antes e que em breve retornará de saca de serapilheira às costas escondendo a caça, um assassino em série que aguarda em silêncio que o seu Jack interior se revele, um cadáver abandonado após um orgasmo violento e um enfarte fulminante ou apenas alguém que dorme?
Acordei sem roupa e sem frio e fui caminhando pelo campo raso, onde os sonhos se misturam na boca como uma injecção intravenosa que entra na corrente sanguínea com ligação directa aos receptores do paladar. Caminhei sem me lembrar como se fazia, mas lá fui - se me perguntarem hoje, juro que apenas pairei alguns centímetros acima do chão e lá fui deslizando num hovercraft de emoções.
Num campo raso fiquei na noite em que nasci, que por acaso era manhã, por volta das onze mais coisa que menos coisa. E nesse campo raso permaneci na noite em que nasci, de dia por fora, negrume por dentro, de tempos a tempos, quando acordo de madrugada sem frio e me dispo de tudo o que aparento.


Comentários